Temas para atrair novos jogadores: animes

Como fã de animações japonesas em geral, fiquei bem entusiasmada quando soube que o Michael Alves, da Arcano Games, lançaria um jogo com esse tema. Mais legal ainda para mim foi saber que o Anime Saga era um projeto visando alcançar um público fora do nosso nicho. Como eu já escrevi por aqui anteriormente, percebo bem pouco sendo realizado nesse sentido. Muito se fala na necessidade de ampliar o público do hobby, mas há uma falta de ações concretas, porque isso significa assumir riscos.
O Anime Saga faz referência aos mais diversos animes em sua arte.
O máximo que temos visto são ações que visam conquistar o público nerd mais amplo, com grandes franquias sendo usadas como temas de jogos. Eu mesma fui atraída para o hobby na época do lançamento do Game Of Thrones LCG pela Galápagos Jogos. E um dos primeiros jogos que joguei, sendo até hoje um dos meus favoritos, foi Battlestar Galactica. Diversos títulos da minha coleção foram adquiridos em virtude da proposta de trazer para mesa a experiência de uma determinada história, entre os mais queridos por mim, estão ainda: Firefly e War Of The Ring.
Battlestar Galactica é um dos jogos mais imersivos que já joguei na vida.

Estão se tornando cada vez mais populares também adaptações analógicas inspiradas em grandes sucessos dos videogames. A versão de tabuleiro para StarCraft produzida pela Fantasy Flight tornou-se um título quase lendário, sendo vendida por valores bem altos por estar fora de impressão, uma vez que a editora não possui mais os direitos de publicação. Um título recente que também tem provocado também grande agitação é Mechs vs Minions, inspirado no fenômeno League Of Legends, sendo produzido pela própria Riot Games. 

StarCraft é o título mais valiosos da coleção, apesar de não estar entre os favoritos.
Porém, os fãs de animes e mangás são tidos como um nicho dentro de outro nicho, quase nada é lançado visando esse público. Geralmente, os jogos que utilizando o tema acabam ficando limitados a adaptações de grandes franquias, que conseguiram superar a barreira do preconceito e atingiram certa popularidade com o público nerd mais geral. Um exemplo recente disso, é a excelente adaptação que a Cryptozoic fez de Attack On Titan para o seu sistema Cerberus de Deck-Building.
Pequenas adições deixaram o jogo bastante temático sem descaracterizar o sistema.

Infelizmente, a maioria das produções japonesas ainda enfrenta problemas de aceitação junto ao grande público, que acaba olhando com um certo desprezo esse tipo de produto. Alguns taxam simplesmente como algo infantil, creio que contribua bastante para essa percepção o fato de sermos uma geração que cresceu assistindo programas como Cavaleiros do Zodíaco e Pokémon. Porém, acho que vale refletir um pouco sobre porque a mesma linha de pensamento não é aplicada aos super-heróis da Marvel e DC, que tem crescido em popularidade nos últimos anos graças ao trabalho realizado nos cinemas e na TV.

Goku vs Superman. Qual deles têm maior chance de te fazer ganhar aquela olhada de lado?

Existe também aqueles que acham que animação japonesa é uma coisa esquisita. Nesse caso, temos uma questão de choque cultural, que acaba vindo acompanhado de um certo preconceito. A pessoa acaba rejeitando quase que de forma automática qualquer anime, desconsiderando que existem variados estilos que são indicados para públicos diferentes, além de se recusar a fazer qualquer mínimo esforço no sentido de entender o contexto por trás de uma determinada obra. Um exercício de raciocínio bastante interessante, pois nos ajuda a enxergar melhor a nossa sociedade através do contraste com outra bastante diferente.

É engraçado notar o quanto a produção japonesa influencia diversas produções ocidentais elogiadas e de grande aceitação por parte do público. Um grande exemplo disso é Avatar: A Lenda de Aang. O elogiado desenho da Nickelodeon traz um forte conteúdo oriental em sua história e estética, mas utilizando de um modo narrativo mais direto. O sucesso foi tanto que gerou a continuação Avatar: A Lenda de Korra, que se aprofunda ainda mais em diversos elementos da cultura oriental, além de se aventurar em uma narrativa mais complexa fazendo uso de forma mais extensa de simbolismos.

O mais próximo que um desenho ocidental já chegou de parecer com um anime.

Outro grande sucesso que possui grande influencia da forma narrativa dos animes, fazendo grande uso de quebra de linearidade e elementos simbólicos para desenvolver uma história com alto grau de complexidade e múltiplas camadas interpretativas é Adventure Time. O grande fenômeno da Cartoon Network tem ao longo dos anos arrebanhado uma legião de fãs e inaugurou todo um estilo muito próprio de fazer desenhos.

Não por acaso existe uma grande quantidade de fanarts estilo anime.

As perspectivas de ampliação da receptividade de animes no ocidente ganhou um reforço de peso. O Netflix, serviço líder no setor de streaming, anunciou um forte investimento no segmento em evento recente destinado a divulgação para impressa de seus próximos projetos. Além do já amplamente comentado reboot de Cavaleiros do Zodíaco. Para o próximo ano, temos Kakegurui e Fate/Apocrypha já anunciados, dois animes muito populares da temporada atual, e a exibição exclusiva no ocidente de Violet Evergarden, título muito aguardado por todos os fãs de animes. Vale destacar também o lançamento de Blame, como produção original (de verdade), eles que anteriormente já haviam feito o elogiado Knights Of Sidonia, ambos do mangaká Tsutomu Nihei.

Netflix investindo cada vez em animes. O Brasil é um dos maiores mercados consumidores.

Diversos animes utilizam cardgames como tema, como o famoso Yu-Gi-Oh. Existem também aqueles que apesar de não ter cardgame como tema acabam gerando jogos de sucesso, como o popular Pokémon. Praticamente todos os animes de sucesso recebem um jogo nesse formato, graças ao sistema Weiß Schwarz criado pela editora japonesa Bushiroad.

Trial Deck de Weiß Schwarz Love Live School Idol Festival.
Além disso, ainda existem animes que tratam especificamente de jogos clássicos de tabuleiro e cartas como Hikaru no Go (que como o nome indica é sobre Go), Saki (é um anime sobre Mahjong) e, mais recentemente, Sangatsu no Lion (é um anime sobre Shogi, que é Xadrez japonês). Poderia citar também o já mencionado anteriormente Kakegurui, já que ele trata sobre disputas entre alunos em diversos jogos analógicos, principalmente de cartas.
Cena de Sangatsu no Lion que explica as regras do Shogi usando música e gatinhos fofos.
Yumeko Jabami, a protagonista de Kakegurui.

Então, temos um público significativo que poderia ser atraído para o hobby mais facilmente através de ações especificas e que tem sido praticamente ignorado. E isso não é apenas em termos de mercado nacional, mesmo lá fora muito pouco é feito pensando nesse público, usei o exemplo do Anime Saga apenas para desencadear a reflexão sobre um assunto que acredito mereça a nossa atenção.

O mercado de boardgames no Brasil está em uma expansão incrível nos últimos anos. Saímos de décadas de trevas aprisionados a War, Monopoly e Clue para descobrir que existe todo um universo gigantesco de outras opções. Todo dia vemos surgir novas editoras, game designers, lojas, eventos, produtores de conteúdo… Porém, a pergunta que me preocupa é: Todo esse crescimento é sustentável? Minha opinião é não. Penso que é preciso parar de olhar só para dentro e procurar maneiras de conquistar novos jogadores.

Este é o meu primeiro artigo de opinião e ele nasceu de maneira completamente espontânea quando comecei a escrever o que deveria ser apenas uma introdução para minha resenha do Anime Saga. Porém, acabou crescendo quase como se tivesse vida própria e se tornando um texto separado. Espero que ele seja informativo e ajude a suscitar reflexão. Deixe uma opinião sobre o assunto. Vocês gostariam de outros textos neste formato? 

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