Análise: Fotossíntese, Mandala Jogos

Fotossíntese é sem sombra de dúvidas um dos títulos mais impressionantes que joguei nos últimos tempos. Além do sempre apreciado equilíbrio entre simplicidade de regras e profundidade estratégica, ele ainda apresenta uma perfeita integração temática e uma arte que não é apenas belíssima, mas também funcional. Acho que é a primeira vez que vejo realmente uma utilização de componentes 3D ser fundamental mecanicamente em um jogo.

Não é só estética, elas possuem uma função real no jogo.

Fotossíntese é um jogo para 2 a 4 jogadores com tempo médio de duração que varia entre 1h-1h30. Ele não ocupa um grande espaço de mesa, ficando todos os seus componentes distribuídos entre o tabuleiro principal e os tabuleiros individuais dos jogadores, uma quantidade bem pequena de elementos fica do lado de fora.

Jogo pronto para começar.

A caixa do jogo vem com espaço para perfeita acomodação das árvores montadas, o que permite facilmente montar e desmontar o jogo, que é bastante enxuto também em termos de componentes. Além dos tabuleiros e árvores, ele conta uma peça que representa o sol e com tokens de pontuação, rotação solar e sementes.

Talvez minha única ressalva em relação aos componentes do jogo seja referente a peça que representa o sol e deve ser rotacionada turno após turno durante a partida. Acredito que ela ficaria melhor se tivesse sido integrada ao próprio tabuleiro. Não é nada que prejudique a funcionalidade do jogo, mas creio que traria uma melhor fluidez, além de deixá-lo ainda mais bonito.

A peça do sol é apenas posicionada de forma solta no tabuleiro.

Não sei se a opção por uma peça solta a ser posicionada foi para simplificar a produção ou se realmente não foi algo que chegou a ser pensado. Acho difícil que tenha sido o segundo caso, provável que integrar a peça ao tabuleiro fosse trazer uma complicação considerada desnecessária, algo que talvez até elevasse de forma considerável o custo final do produto.

A duração da partida de Fotossíntese é controlada pela rotação do sol, cada volta completa tem 6 estágios. Após 3 voltas completas, a partida é imediatamente encerrada. O posicionamento do sol em relação às árvores determina a quantidade de pontos de sol que cada jogador irá receber. Os pontos de sol são a moeda do jogo, é através deles que os jogadores realizaram suas ações. Essa é a primeira fase da partida e ocorre de forma simultânea.

A fase da coleta dos pontos de sol é fundamental para todo o restante, é preciso avaliar muito bem onde plantar suas árvores para fugir ao máximo de sombras que serão geradas pelas árvores de outros jogadores, além é claro de tentar você mesmo projetar sombra sobre eles com as suas árvores. Em minha opinião, é a parte mais admirável do jogo. Não apenas por ser sua raiz estratégica, mas também pela forma como está intimamente amarrado ao tema.

A árvore verde faz sombra na azul e a árvore amarela nos três espaços atrás dela, pegando duas também amarelas e uma verde.

As árvores possuem 3 tamanhos distintos, cada jogador começa a partida plantando duas de tamanho pequeno, na borda mais externa do tabuleiro principal. Tudo o que é posicionado no tabuleiro individual de cada jogador faz parte da sua reserva. Os elementos que estão disponíveis para serem utilizados ficam do lado de fora e inicialmente são duas sementes, duas árvores pequenas e uma árvore média. Para poder tornar disponíveis os demais elementos, os jogadores precisaram gastar pontos de sol.

Tamanho de árvores existentes no jogo e respectiva semente.

Após os jogadores terem contabilizado seus pontos de sol começa a segunda fase que ocorre de forma individual. As ações disponíveis são tornar disponíveis novos componentes, plantar, evoluir e colher. Cada elemento possui um custo diferente para ser tornado disponível, todos vem impressos no tabuleiro de forma bastante visível. As ações podem ser realizadas em qualquer quantidade e ordem, o único limitador é a quantidade de pontos de sol.

Para plantar uma nova árvore, o jogador deve posicionar a semente a uma distância entre 1-3, isso vai depender do tamanho da árvore de origem, que ficará indisponível para qualquer outra utilização durante o restante da vez do jogador. Uma árvore não pode ser ativada mais de uma vez. Assim sendo, sendo o jogador plantou uma semente a partir dela, terá que esperar até a sua próxima vez para evoluí-la, por exemplo.

Plantando uma nova árvore.

A regra de 1-3 espaços também é a mesma para cálculo de sombra na contagem dos pontos de sol na primeira fase. Como se isso já não simplificasse suficientemente as coisas, ainda tem um desenho no tabuleiro individual mostrando isso. Da mesma forma, a regra para evolução e colheita da árvore com seus custos também está visualmente apresentada.

Um ótimo tabuleiro individual: todas as informações de forma clara e peças bem organizadas.

O objetivo do jogo é levar a árvore de semente até a fase adulta. A cada evolução da árvore, a quantidade de pontos de sol necessários vai aumentando. Quando a árvore chega ao seu pleno desenvolvimento, é preciso ainda pagar para realizar a sua colheita. Então, o jogador levará no mínimo cinco turnos entre o plantio e a colheita, isso se considerarmos que ele tenha sempre pontos de sol suficientes para fazer todas as ações necessárias. Isso é quase um terço da duração da partida.

Como se isso já não fosse o suficiente para deixar o jogo bastante apertado, o processo evolutivo ainda tem como empecilho o fato de que se não houver espaço na reserva para devolução do item evoluído, ele é descartado. Então, temos como desafio adicional a busca do equilíbrio entre descartar e gastar pontos de sol para abrir espaço na reserva antes de fazer uma ação de evolução.

As diferentes áreas do tabuleiro central concedem diferentes pontuações, quanto mais no centro mais valorizado, porém árvores crescendo nessas posições são mais fáceis de serem encobertas pelas sombras das árvores dos oponentes. Creio que vale a pena o esforço de tentar uma árvore no meio, principalmente no espaço único de 4 folhas, nem que seja apenas para trancar o local.

A corrida para ocupar o centro por gerar maior pontuação.

Fotossíntese é um jogo que não possui interação direta, afinal os jogadores não podem atacar as árvores uns dos outros, porém seu criativo sistema de sombras obriga os jogadores a levarem em grande consideração as ações dos demais. É uma interação indireta, mas bastante agressiva. Algo que até surpreende em se tratando de um jogo com uma temática que inspira tranquilidade.

Essa interação causada pelo sistema de sombras é perdida na partida para 2 jogadores, pois sendo o espaço do tabuleiro o mesmo, é possível que cada jogador faça o seu sem interferir no do outro, o famoso “jogo de cumadre”.  Acho que o espaço do tabuleiro deveria ser reduzido em uma partida para 2 jogadores, para manter essa obrigatoriedade da disputa pelos pontos de sol.

Fotossíntese ainda oferece duas pequenas variantes: a principal impede evolução de árvores que estejam sob a sombra de outras e a outra é a adição de um quarto turno. É uma opção interessante para aqueles que querem uma disputa ainda mais acirrada, com maior exigência estratégica. Mas creio ser recomendado apenas para jogadores experientes.

Só parece pacífico. A disputa por um lugar ao sol pode ser bem agressiva.

Jogos que permitem bloquear outros jogadores podem ser bastante frustrantes e Fotossíntese não foge a essa característica, um mau planejamento pode levar o jogador a amargar turnos sem ação possível para realizar pela falta de pontos de sol. Se as árvores de outros jogadores estão fazendo sombra sobre as suas, não há o que fazer basicamente. É um jogo que não te dá margem de manobra. Não se deixe enganar pelo tema, ele é punitivo como todo bom econômico.

Fotossíntese é uma boa opção para toda família com suas regras simples e componentes que saltam aos olhos. Bom para novatos que poderão ser iniciados em alguns conceitos recorrentes em jogos mais pesados de uma maneira leve e bom também para heavy gamers que tem a sua disposição uma boa game de possibilidades estratégicas a serem exploradas. Porém, juntar ambos os grupos em uma mesma mesa pode não ser uma boa ideia, ainda mais com jogadores altamente competitivos que gostem de usar bloqueio.

Veja ainda nosso vídeo sobre o jogo, produzido para o canal:

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