Análise: Attack On Titan – The Last Stand, da Cryptozoic Entertainment

Attack On Titan (Shingeki No Kyojin, no original) é um dos maiores fenômenos do mercado de mangás e animes dos últimos anos, conseguindo romper com a barreira do nicho e alcançar todo um novo público que foi conquistado por sua história inovadora e bastante madura. Um drama sobre a resistência humana, vivendo em cidades muradas, contra as investidas dos poderosos titãs. Porém, o que poderia cair facilmente em uma vazia de ação, na verdade se desenvolve como uma grande história de sobrevivência, repleta de intrigas e emocionantes reviravoltas, com personagens profundos e cativantes.

Um verdadeiro fenômeno de popularidade que conquistou fãs no mundo inteiro.

Como toda grande franquia de sucesso, as adaptações para outras mídias vieram como um acontecimento natural. Os direitos para adaptação de Attack On Titan no mercado dos boardgames pertencem atualmente a Cryptozoic Entertainment, conhecida por lançar jogos baseados em diversas franquias populares. Dois jogos já foram lançados até o momento: o primeiro deles foi o Attack On Titan: Deck-Building Game, uma adaptação bastante interessante e bem sucedida do tema ao Cerberus Engine (DC Deck-Building Game); já para o segundo, Attack On Titan: The Last Stand, a editora recrutou a experiente dupla de game designers Antoine Bauza e Ludovic Maublanc para realização de seu desenvolvimento.

Antoine Bauza, em entrevista publicada aqui no blog no início do passado, revelou que ele e Ludovic Maublanc são grandes fãs do mangá. Quem conhece um pouco dos jogos desenvolvidos pelo renomado autor francês sabe que temas relacionados ao Japão são recorrentes em seu trabalho, podemos citar como exemplos: Hanabi, Takenoko e Rampage. Porém, ao ver as primeiras notícias sobre o desenvolvimento de Attack On Titan: The Last Stand, confesso que fiquei bastante desconfiada sobre a qualidade do jogo.  As imagens iniciais dele na GenCon de 2015 não me pareceram nada animadoras.

Antoine Bauza encontrando o titã (Fonte: IG do autor)
Protótipo apresentado na GenCon de 2015. (Fonte: BGG)

Parte da minha desconfiança em relação ao jogo veio por se tratar de um produto da Cryptozoic Entertainment, que já lançou verdadeiros caça-níqueis no mercado. Então, apesar de ter o DC Deck-Building Game como um dos meus jogos favoritos, sempre mantenho um pé atrás com qualquer lançamento da editora. Porém, bastou apenas uma partida para que todos os meus temores se mostrassem totalmente infundados, Attack On Titan: The Last Stand é hoje em dia um dos títulos mais jogados da coleção.

Attack On Titan: The Last Stand é um jogo que apesar de possuir um conjunto de regras bem simples, ele é basicamente um dice rolling com press your luck, consegue obter bastante sucesso mesmo entre jogadores mais experientes. A especificidade do tema de forma alguma se mostrou uma barreira, funcionando muito bem com jogadores que não o conheciam também. A premissa é universal o suficiente para tornar a imersão fácil, o que é reforçado por ser um jogo cooperativo com overlord.

Tudo pronto para começar uma partida.

O overlord assume o papel do titã, enquanto os demais jogadores ficam no papel dos personagens que lutam pela sobrevivência da humanidade. Esses dois papéis funcionam de forma completamente diferente, dando uma dinâmica bem interessante ao jogo. O jogador no controle do titã possui um conjunto de cartas de ação, além de ter em sua ficha de personagem diversos poderes que são ativados com uma face específica dos dados rolados pelos demais jogadores.

Um dos conjuntos de ficha e cartas de titã. O jogo possui 4 diferentes.

Pelo lado da humanidade, os jogadores rolam seus dados quantas vezes quiserem em busca dos melhores resultados, porém uma das faces do dado dá poder ao titã, então é necessário ter muito cuidado e saber o momento de parar. É primordial uma boa comunicação entre os jogadores para traçar uma tática vencedora.

Uma das 8 fichas de personagens disponíveis no jogo.

Os elementos 3D do jogo, que tanta desconfiança me causaram inicialmente, hoje são a minha parte favorita. Eles têm um papel real dentro da mecânica do jogo e dificilmente poderiam ser substituídos sem causar grandes alterações na jogabilidade. Não se trata apenas de um atrativo a mais ou de elementos decorativos, como é comum vermos em diversos jogos. Eu acho admirável a forma como foram tão bem integrados na estrutura mecânica do jogo e servem também como elementos fundamentais de tematização.

O “Smiling Titan”, como é chamado, é um dos titãs mais icônicos de Attack On Titan.
Outro elemento importante é a torre, local de onde os jogadores podem fazer ataques à distância.

COMO JOGAR

Como eu já havia escrito mais acima, Attack On Titan: The Last Stand é um jogo de regras bastante simples. Um jogador fará o papel do titã e os demais serão os personagens humanos que lutam contra ele. É um jogo cooperativo com presença de overlord. O jogador com o titã usará cartas e dados de rolagem falhas dos outros jogadores para ativar as habilidades de sua ficha de personagem. Quem joga com a resistência humana depende bastante do resultado de sua rolagem de dados, mas cada personagem possui uma habilidade especial que pode ser ativada sempre que a condição exigida for alcançada, ajudando a diminuir a dependência da sorte.

Como todo bom jogo cooperativo, existe apenas uma condição de vitória para os jogadores do lado dos humanos e várias possibilidades de derrota, e consequentemente vitória do jogador controlando o titã. São elas: morte de personagem de um jogador, destruição de todos os 6 canhões ou morte de todos os cidadãos. A única possibilidade de vitória para os jogadores do lado dos humanos é vencer o titã, o que exige uma série de condições além de simplesmente dar dano, conforme será explicado mais adiante neste texto.

Tokens de cidadãos.

No começo da partida, é realizada a montagem dos dois níveis da torre onde deverão ser posicionados os canhões, o encaixe das plataformas na peça do titã e posicionamento dos tokens de cidadãos. Após isso, todos deverão escolher seus respectivos personagens e pegarem para si todos os itens relacionados a eles, os jogadores humanos devem escolher uma posição inicial que pode ser 0 (no chão, aos pés do titã) ou 3/5 (na torre, onde estão posicionados os canhões).

Toda partida é aquele monta e desmonta.
Os personagens podem começar no nível 0.
Ou nos níveis 3 e 5 que ficam na torre.

ORDEM DO TURNO

  • O jogador que controla o titã escolhe duas cartas, uma será jogada aberta e a outra fechada. Após o uso, essas cartas são descartadas impossibilitando que sejam usadas por dois turnos seguidos. Elas voltam para mão do jogador que controla o titã no fim do turno seguinte.
Cartas de ação são passíveis de terem seu efeito anulado pelos jogadores.
  • Os jogadores que controlam os personagens humanos rolam seus dados, quantas vezes quiserem, até estarem satisfeitos com o resultado. Porém, cada face de titã deverá ser entregue ao jogador que o controla, aumentando o poder da sua jogada.
  • O jogador que controla o titã usa os dados recebidos, que foram entregues pelos jogadores que controlam os humanos, para ativar os poderes da sua ficha de personagem. Após a utilização, os dados são devolvidos aos jogadores que poderão rolá-los apenas uma única vez.
Os poderes ativados da ficha do titã são indefensáveis.
  • As cartas de ação, jogadas no início do turno, são resolvidas. Primeiro a que já está aberta para só depois revelar a fechada. Neste momento, os jogadores têm a oportunidade de utilizar seus dados para anular os efeitos das cartas.
  • Os jogadores utilizam seus dados restantes para realizar suas ações.
1) Troca carta de tática e anula carta de ação do titã, 2) Anula carta de ação do titã, 3) Movimentação, 4) Ataque corpo-a-corpo e 5) Ataque à distância.

Para derrotar o titã não basta apenas dar dano, é necessário ter em jogo uma carta de tática que permita a vitória e cumprir todas as condições nela requeridas. No início da partida, uma carta de tática é aberta de forma aleatória. Todas elas oferecem algum tipo de benefício aos jogadores, caso suas condições sejam cumpridas com êxito.

Das 7 cartas de tática existentes no jogo, apenas 2 levam a vitória.

Após isso, a carta é automaticamente substituída por outra. Porém, Attack On Titan: The Last Stand é um jogo que exige dos jogadores agilidade, pois a cada ataque do titã fica mais próxima a derrota, então trocar a carta de tática vai ser sempre uma manobra necessária, para isso é utilizado a face do dado que mostra o símbolo de tática.

A carta de tática é o principal elemento dificultador do jogo, porém achei bastante temático, pois derrotar os titãs exige sempre todo um planejamento de ação em equipe. Por maior destaque em combate que tenha um ou outro personagem na história, a vitória é sempre obtida de modo conjunto e planejado. Foi uma transposição muito boa de algo que é importante na história para a mecânica do jogo.

Um personagem que ajuda muito na questão das cartas de tática é o Armin.

CONSIDERAÇÔES FINAIS

A dupla Bauza e Maublanc fez um ótimo trabalho conseguindo traduzir a essência do tema de uma forma bastante acessível e atraente. Attack On Titan: The Last Stand é uma excelente opção para atrair novos jogadores. Suas regras são fáceis de aprender e seu tempo de partida é rápido. Os componentes em 3D foram muito bem pensados, pois ao mesmo tempo em que servem a mecânica do jogo também são um ótimo atrativo visual. Ser cooperativo o torna altamente imersivo e temático, pois os jogadores precisam se comunicar o tempo todo, discutindo seus próximos passos.

A forma totalmente diferente como o jogador que controla o titã deve jogar enriquece muito o jogo. Foi uma decisão bastante acertada colocar o titã como um elemento jogável, e não apenas como uma IA. A utilização de overlord causa problema em alguns jogos porque, muita das vezes, o jogador que fica com esse papel acaba apenas como um administrador do elemento de oposição aos demais jogadores, algo bastante chato e burocrático.  Não é o que acontece aqui, onde o jogador que controla o titã tem todo um conjunto de regras específicas para si e joga ativamente em busca de um objetivo.

O titã é muito mais forte que os jogadores e possui muito mais recursos para suas jogadas. É um papel muito atraente tanto no aspecto mecânico quanto no aspecto temático. E é muito mais empolgante enfrentar um personagem controlado por outro jogador do que algo que é gerado mecanicamente pelo jogo. O controle do titã também é uma ótima opção para aqueles jogadores que não gostam de jogar cooperativamente ou que buscam um nível maior de estratégia.

Controlar o titã é um dos grandes atrativos de Attack On Titan: The Last Stand.

Apesar de ser um jogo no qual a mecânica de rolagem de dados é central, ele não sofre de um fator sorte que o prejudique. Isso é controlado pela possibilidade de rolar os dados várias vezes e pelas habilidades de cada personagem. Porém, se por um lado o jogo afrouxa nas rolagens, ele também aperta com a face do titã no dado, o que fará o jogador pensar bem antes de cada decisão de rolar novamente seus dados.

Por fim, duas questões que costumam preocupar neste tipo de jogo: rejogabilidade e dependência do tema.  A rejogabilidade dele é bastante alta, cada partida costuma ser bem diferente uma da outra, mesmo que a mesa seja composta pelos mesmos jogadores. Quanto à questão temática, ele funciona muito bem mesmo entre aqueles que a desconhecem, o que prova a sua competência mecânica.

Por ser um jogo baseado em um anime/mangá, mesmo tendo a assinatura de um game designer tão popular como Antoine Bauza, eu não tinha qualquer esperança de vê-lo sendo lançado no Brasil. Então, foi com muita surpresa que recebi a notícia de que ele seria o grande lançamento da Galápagos Jogos na CCXP deste ano. Um titã de três metros de altura é um dos destaques do stand da editora. Os visitantes da feira poderão enfrentar o desafio de derrotar o titã numa parede de escalada. Todos aqueles que cumprirem a missão concorrem a um sorteio ao final de cada dia, valendo uma unidade de Attack On Titan: A Última Resistência (título nacional do jogo).

Divulgação do jogo no stand da Galápagos Jogos na CCXP 2018.

No meio do ano passado, eu escrevi um texto sobre a necessidade de investir no lançamento de jogos com temas diversificados como ferramenta para ampliação de público, usando como exemplo a temática de animes, que é algo mais alinhado ao meu próprio gosto pessoal. O que a Galápagos Jogos fez ao lançar Attack On Titan: The Last Stand em um evento como a CCXP vem ao encontro dessa ideia de olhar para o público de fora. Espero que sendo a maior editora nacional de boardgames, essa atitude sirva para influenciar as demais nesse sentido. Não haverá um crescimento sustentável no Brasil se o mercado olhar apenas para o próprio umbigo.

Assista também ao nosso vídeo de review e explicação de regras:

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