Análise: Flamme Rouge, da Conclave Editora

Eu não tenho nenhum grande conhecimento ou até mesmo interesse por ciclismo. Na verdade, eu nem sei andar de bicicleta. Nunca consegui aprender devido a experiências traumáticas em tentativas frustradas na infância. Se me falarem em Tour de France, mais rápido vou me lembrar do álbum do Kraftwerk (banda alemã de música eletrônica) do que da tal famosa prova de ciclismo de estrada. No entanto, mesmo com toda a minha falta de familiaridade com o tema, achei Flamme Rouge um dos lançamentos recentes mais interessantes da Conclave Editora no Brasil.

Lançado em 2003 em homenagem aos 100 anos da competição. Uma ótima opção de trilha sonora para animar uma partida, não?

Flamme Rouge é um jogo de corrida de bicicletas que utiliza pistas modulares e movimentação através de cartas. Através de regras bem simples e dinâmicas, ele consegue transportar para a mesa os principais conceitos presentes nesta pratica esportiva. É perceptível a preocupação temática em cada detalhe do jogo, mas sem deixa-lo ficar carregado demais de informações.

Cada jogador controla dois ciclistas com diferentes características: o sprinter é o especialista em velocidade de curta duração, enquanto o rouler é o especialista em constância. Essa distinção é representada na diferença de composição dos decks de cartas de cada um deles. As próprias miniaturas também fazem referência a isso ao mostrar um ciclista mais em pé e o outro mais agachado, então antes mesmo de ver a letra de identificação é possível já saber quem é quem apenas pelo posicionamento.

As miniaturas representam a postura característica ao pedalar de cada tipo de ciclista.

As cartas representam a energia dos ciclistas e variam entre 2-9, sendo que a distribuição de valores e quantidades é diferente de um ciclista para o outro justamente para respeitar suas diferentes características. O uso de cada carta é único na partida, pois representa a energia gasta no movimento. O jogador irá escolher uma carta para usar e depois descarta-la, então é preciso muito cuidado a cada escolha, levando em consideração todo o percurso ainda restante.

A carta de ajuda de um lado apresenta as fases e do outro a quantidade de cartas que compõem o deck de cada tipo de ciclista.

Os jogadores simultaneamente deverão comprar 4 cartas, escolher uma para utilizar e colocar as restantes, com a face virada para cima, no fundo do deck. As cartas serão resolvidas de acordo com a ordem de posicionamento dos ciclistas na pista. Porém, é importante levar em consideração que o movimento é simultâneo, o que não tem como ser fielmente representado devido a limitações físicas. Seria bem bagunçado se todos resolvessem seus movimentos ao mesmo tempo.

A resolução do movimento é realizada de acordo com a colocação em que estão na corrida.

Eu achei essa questão do uso único de cada carta incrível, pois foi uma forma simples e elegante que o game designer encontrou para representar com fidelidade temática o movimento dos ciclistas, assim como a questão da diferença dos decks de sprinter e rouler. O tabuleiro individual de cada jogador ajuda a organizar as cartas e deixa o jogo visualmente mais bonito, trazendo a arte de cada ciclista. Ele também facilita a identificação da cor do jogador.

O tabuleiro individual é simples e funcional mantendo suas cartas devidamente organizadas.

ARTE

Aproveito para abrir um parêntese aqui para comentar a arte antes de continuar com as regras. A arte de Flamme Rouge chama atenção por seu aspecto de caricatura em estilo retrô. Creio que tal escolha tenha sido feita para fazer referência à tradição do esporte que, apesar de ter surgido na Inglaterra, teve suas primeiras competições na França, e também a rivalidade com os demais países.

A bela arte de capa de Flamme Rouge bem de pertinho.

A mais antiga e prestigiada prova do chamado Grand Tour é justamente a Tour de France (1903). As demais provas que compõem a competição são o Giro d’Itália (1909) e a Vuelta a Espanã (1935). Observando a arte de cada dupla, tive a impressão de que elas fazem referência aos países onde ocorrem essas três competições, sendo a dupla restante uma referência à nacionalidade do próprio game designer ou a Inglaterra, não consigo me decidir por uma hipótese apenas.

França, Espanha, Itália e Inglaterra? Ou seria um deles a Finlândia, país de origem do jogo?
Este rapaz todo feliz e orgulhoso na foto é o game designer Asger Harding Granerud.

Acredito que o uso do recurso da caricatura foi uma escolha para dar a arte um tom humorístico aproveitando a competitividade existente entre os ciclistas dos países que sediam o Grand Tour. É interessante notar que a caricatura é uma expressão artística surgida na Itália, mas que ganhou grande notoriedade na França devido ao ambiente social do século XIX.

A caricatura é uma forma de arte precursora ao Expressionismo, que é um movimento artístico que rompe com a representação fidedigna da realidade para dar lugar à subjetividade do artista. A caricatura é um estilo de desenho que através de certa deformação intencional do real tem como objetivo destacar de forma satírica características não materialmente manifestas do que está sendo retratado.

Arte de cada um dos decks de Flamme Rouge.

A interpretação aqui apresentada é pessoal e não se baseia em nada concreto. Porém, independente de você concordar ou não comigo, acredito que não seja possível negar o interesse que essa arte desperta. Apesar de Flamme Rouge não ter muitos componentes e suas artes serem em quantidade reduzida (capa, tabuleiro individual e cartas), ela é extremamente marcante, cumprindo seu papel tanto temático quanto de servir de atrativo para o jogo. Uma arte que trouxesse uma representação moderna tradicional de ciclistas não chamaria metade da atenção.

Manual do jogo faz referência a uma página de jornal. Cuidado com a arte em todos os detalhes.

E mais uma vez vemos os cuidado com os detalhes, já que nos tabuleiros individuais os ciclistas são representados como se tivessem posado para uma foto antiga, o que é representado por marcas que tentam representar essa passagem no tempo. É como se estivéssemos sendo convidados a uma corrida no passado, a visitar os primórdios do esporte.

Repare nas marcas de amassado.

REGRAS

Retomando as regras, agora de forma um pouco mais organizada. O primeiro passo para jogar Flamme Rouge é a escolha da pista. O jogo vem com seis pistas, o que dá uma boa possibilidade de variação. Um acerto muito grande a opção por uma pista de montagem modular ao invés de um tabuleiro fixo, ocupa menos espaço e aumenta a rejogabilidade. A pista inicial recomendada é Avenue Corso Paseo, pois as demais possuem regras avançadas de terreno. Realizada a montagem da pista que é bem simples e rápida, hora de cada jogador pegar a sua dupla de ciclistas.

Cartas para montagem de cada uma das pistas.
Peças modulares possibilitam grande variabilidade sem ocupar muito espaço.

Todos os ciclistas são iguais, só muda mesmo a cor e a arte no tabuleiro individual, todos possuem as mesmas cartas em seus decks. Nada de poderes variáveis por aqui. Cada um tem exatamente as mesmas chances a sua disposição. A vitória virá de quão melhor uso foi feito desses recursos. Jogos com poderes variáveis, às vezes, me dão uma sensação de “Deus Ex” desagradável.

A rodada de Flamme Rouge é dividida em 3 partes: Energia, Movimento e Final.

  • Energia é a fase de escolha de cartas que ocorre de forma simultânea entre todos os jogadores, conforme já foi dito mais acima neste texto. Os jogadores compram quatro cartas, escolhem uma e devolvem as três restantes para o fundo do deck viradas para cima. Feito isso tanto para o Sprinter quanto para o Rouler, os jogadores revelam suas escolhas e começam o processo de resolução.
  • Movimento é a fase em que são resolvidas as cartas que foram escolhidas na fase anterior. A resolução começa pelo jogador que está mais a frente. Sempre considerando aquele que estiver à direita em caso de jogadores posicionados lado a lado. As miniaturas sempre devem ser posicionadas do lado direito, o lado esquerdo só é utilizado quando o direito estiver ocupado. Miniaturas de outros jogadores não bloqueiam o movimento.
Quando lado a lado na pista é considerado a frente que está do lado direito, esse é um detalhe importante para prestar atenção.
  • Na fase Final, temos duas das três regras mais interessantes do jogo: Efeito Aerodinâmico e Exaustão.

– Efeito Aerodinâmico

Quando ao terminar a movimentação fica apenas um espaço (direita e esquerda) livre separando as miniaturas é aplicado o chamado Efeito Aerodinâmico, que é a forma como os ciclistas aproveitam o vácuo deixado pelo oponente a sua frente para se moverem economizando sua própria energia. Sua aplicação começa de trás para frente e é realizado por grupo, não individualmente, assim sendo uma mesma miniatura pode ser beneficiada mais de uma vez. Isso é bem comum de acontecer, a união de vários grupos menores formando grupos maiores.

A aplicação do Efeito Aerodinâmico começa pelo último grupo.
Um grupo maior foi formado.
Quem está mais atrás se beneficia mais.

Os ciclistas correm todos juntos em grupo para evitar o desgaste da resistência do ar. Por isso, o sprinter é tão importante, pois as vitórias em geral são disputadas no final das provas, então tem muita vantagem o ciclista com grande capacidade de uma explosão de velocidade em curta distância. Os sprinters também têm como característica trabalhar para que outros ciclistas não saiam do grupo, pois a vantagem deles está na chegada em pelotão nas provas de estrada.

– Exaustão

Devido à questão da resistência do ar, as miniaturas que tiverem mais de um espaço (ambos os lado da pista) a sua frente recebem Exaustão, que é uma carta de valor dois que deve ser adicionada no final do deck virada para cima assim como as cartas não usadas compradas durante a fase de Energia.

Receber muitas cartas de Exaustão ao longo da corrida pode te deixar sem fôlego suficiente na reta final. Não tenha pressa para andar a frente nesta corrida.

Em provas de ciclismo de estrada, que são percursos longos em ambientes aberto, a questão da resistência do ar tem uma influência muito grande no desgaste sofrido pelos ciclistas, por isso a preferência por andar em grupos, deixando a decisão para o final do percurso.

FINAL DA PARTIDA

A partida não é vencida por quem primeiro cruzar a linha de chegada, mas sim por quem cruza-la estando mais rápido. Isso é representado por quem for mais longe após a linha, indicando assim que estava na maior velocidade. Isso pode parecer estranho a princípio para quem não está acostumado com jogos de corrida. Eu mesma achei esquisito. Mas é importante considerar que o movimento é simultâneo, sendo feito pelos jogadores um de cada vez apenas por questões praticas. Assim sendo essa é a forma de verificar adequadamente a vitória, porque quem chegou a frente é que tem a maior velocidade.

A decisão da vitória é realizada por quem foi mais longe após atravessar a linha de chegada dentro da rodada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Flamme Rouge é uma ótima opção para quem quer um jogo de corrida que seja rápido, mas sem abrir mão dos detalhes temáticos. A simplicidade de suas regras permite que ele seja apresentado facilmente para qualquer tipo de pessoas. Porém, não afasta os jogadores mais experientes que gostam de uma boa estratégia. É um jogo de elementos simples, mas com uma arte competente. Sua rejogabilidade natural é aumentada pela quantidade de pistas oferecidas.

Minha única ressalta em relação do jogo é em relação à quantidade de jogadores, apesar de ser de 2-4, não curti ele apenas com 2 porque vira uma corrida de velocidade, perdesse todo o apelo do grupo, em torno do qual tudo gira no jogo. Não joguei em 3, mas parece que o ideal é 4 mesmo. Na verdade, eu gostaria que o jogo fosse para uma quantidade ainda maior de jogadores.

Porque bom é pista cheia.

Isso foi resolvido pela primeira expansão do jogo, a Peloton, que a Conclave Editora acaba de lançar aqui no Brasil. A expansão traz mais duas duplas de ciclistas, adiciona modo solo e para 12 jogadores. Além disso, traz novas pistas e peças com novos efeitos. Ainda não tive a oportunidade de experimentar o jogo com essa expansão, mas pelo que li de seu conteúdo, fiquei bastante interessada, mesmo não sendo do tipo que geralmente se interessa tanto por expansões. Porém, parece que é tanto conteúdo que valia outro post e vídeo só para falar dela.

Vale a pena ficar de olho na expansão.

Confira também a seguir o nosso vídeo sobre Flamme Rouge:

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *