Análise: Wingspan, da Ludofy Creative

Quando Wingspan foi lançado chamou bem pouco a minha atenção. Apesar de gostar de jogos com temáticas diferentes, estou realmente cansada de fantasia medieval estilo D&D, observação de pássaros não é um tema dos mais atrativos. Porém, praticamente todos os dias aparecia alguma foto nas minhas redes sociais, o que começou a mexer com a minha curiosidade. Fora que o jogo tem uns componentes realmente bem bonitos.

Mesa pronta para uma partida de 2 jogadores.

Por fim, descobri que o Wingspan era criação de uma game designer mulher, o que para mim é bastante significativo, já que são tão poucas. Ainda mais não se tratando de co-design com um autor masculino, que é o mais comum. Era uma mulher como designer principal de um dos jogos mais comentados do ano. O jogo de estreia de Elizabeth Hargrave não apenas foi indicado ao Kennerspiel des Jahres, o que já seria um grande feito, mas venceu concorrendo com jogos de game designers consagrados como Stephan Feld e Ignacy Trzewiczek.

Os concorrentes ao Kennerspiel des Jahres 2019: Elizabeth Hargrave (Wingspan), Stephan Feld (Carpe Diem) e Ignacy Trzewiczek (Detective). Fonte: BGG
Elizabeth Hargrave posando com o troféu de vencedora do Kennerspiel des Jahres 2019 e a capa da edição alemã do jogo já com o selo da grande conquista. Fonte: Kulturexpresso)

Porém, eu não queria criar muito expectativa para não ficar decepcionada. Isso porque um dos principais chamarizes do jogo é o fato de ser um construtor de motores, algo que parece estar bastante em alta. No entanto, minha primeira experiência com um jogo que se identificava de tal forma não foi das melhores. Engraçado que só depois de jogar Wingspan é que percebi que alguns dos meus jogos favoritos possuem tal característica, a diferença é só que isso não era anteriormente divulgado como um atrativo.

Além disso, uma das minhas principais preocupações era que o tema fosse “colado com cuspe” e que, na verdade, ele fosse um abstrato. Seria bastante decepcionante se assim fosse. Ainda bem que meu medo se mostrou infundado. O jogo é incrivelmente temático e de uma forma bem natural. Não deixa aquela sensação de forçada de barrada que acontece em alguns jogos.

A beleza de Wingspan não se limita apenas aos seus componentes, mas pode ser admirada na atenção aos detalhes, como as informações sobre os pássaros e a pratica da observação foram incorporadas nas regras do jogo. Isso pode ser enxergado de forma mais evidente nos objetivos ocultos, mas também está presente no modo como as 170 cartas únicas respeitam as características dos pássaros representados.

No entanto, a atenção com os detalhes temáticos não deixou o jogo indevidamente mais complexo do que deveria, o que é sempre um risco. Wingspan é um jogo bastante simples de explicar e entender, suas regras são bastante enxutas. O trabalho bem feito de design gráfico também é uma grande ajuda, com uma iconografia muito eficaz e de fácil entendimento.

COMO JOGAR

Wingspan é um jogo com uma duração de 4 rodadas, cada uma delas com um objetivo de pontuação que irá variar a cada nova partida. Eu gosto muito de jogos que possuem número fixo de rodadas, onde a gente tenha a noção exata do andamento. Outro ponto positivo é a forma como a cada nova rodada o número de ações que o jogador pode fazer vai diminuindo, isso coloca uma pressão adicional na necessidade de ser eficiente para compensar essa perda.

Cartela que indica os objetivos de cada rodada.

Os jogadores começam a partida escolhendo entre 2 opções de objetivos secretos e escolhendo com quais das 5 cartas de pássaros recebidas inicialmente irá começar. O jogador recebe cada um os 5 tipos de comida existentes no jogo e deverá pagar uma comida para cada carta de pássaro que decidir manter em sua mão. Não achei a comida algo muito apertado, mas começar a partida diante de uma escolha desse tipo já coloca um desafio.

Escolhas difíceis antes mesmo de começar a partida.

Cada jogador possui um tabuleiro individual onde serão jogadas suas cartas de pássaro, respeitando o tipo de ambiente específico de cada ave. Além disso, ele também apresenta cada uma das 4 ações possíveis:

Jogar uma ave: Pagando o custo de comida indicado e respeitando a indicação de tipo de ambiente exigido, a carta entra no espaço livre mais a direita. A partir do segundo espaço é necessário pagar também um valor em ovos conforme indicado no próprio tabuleiro.

As informações sobre ambiente em que a ave pode ser baixada e as comidas que deverão ser pagas para tanto são encontradas em destaque no canto superior esquerdo.

Coletar comida: O jogador irá escolher dados no comedouro, que é uma torre de dados em formato de casinha de pássaro.

A torre de dados mais bonita e temática que eu já vi.

Botar ovos: Os ovos podem ser distribuídos pelas cartas de pássaro já jogadas a critério do jogador, devendo apenas ser respeitado o limite específico de cada ave.

A forma como distribuir os ovos deve ser pensada de acordo com os objetivos da partida.

Comprar cartas: Pegar novas cartas de pássaros. Não existe um limite de mão.

Eu acho sensacional esse expositor de cartas.

*Quantidade de ovos, dados de comida e cartas a serem compradas vão aumentando conforme as cartas de pássaro vão sendo jogadas, desbloqueando os espaços.

O BATER DE ASAS DO PÁSSARO

As cartas de pássaro possuem ações que podem ser acionadas quando jogadas ou quando ativadas. No primeiro caso, é um efeito que só ocorrerá apenas uma vez; no segundo, é um efeito ocorrerá toda vez que a ação da localidade onde a carta foi jogada for ativada. Aí é que está a tão celebrada construção de motores de Wingspan, que faz com que o jogador tenha cada vez mais o que fazer no jogo, apesar da diminuição de suas ações rodada após rodada.

Além dos efeitos de quando ativada e quando jogada, uma carta pode ter um efeito entre turnos ou não ter efeito nenhum.

Eu sempre tive dificuldade com jogos com foco em combos porque dificilmente consigo identificar as boas combinações de cartas, acho que porque isso exige uma capacidade alta de planejamento Eu tive medo de ter esse problema em Wingspan, porém creio que isso não ocorreu porque em grande parte por causa dos objetivos de final de rodada e o objetivo pessoal oculto que delimitam um curso de ação mais claro.

Alguns exemplos de cartas de objetivo pessoal oculto.

Evidente que isso não impossibilita que os jogadores explorem outras possibilidades de pontuação, existem diversas opções estratégicas. Porém, achei muito boa a acessibilidade inicial apresentada. O que torna o jogo interessante tanto para novos jogadores quanto para jogadores mais experientes. É bem desestimulante estar em uma partida em que não se consegue fazer nada.

Wingspan apresenta um caminho inicial que fazer que faz com que o jogador não se sinta perdido, praticamente eliminando a barreira de entrada. Após algumas partidas e já tendo ganhado alguma familiaridade com as cartas, o jogador pode começar, ou não, a explorar mais opções. Eu gosto de jogos que dão liberdade aos jogadores, oferecem diversos níveis de complexidade.

Dependendo da estratégia adotada, cumprir os objetivos da rodada pode se tornar até secundário na composição da pontuação do jogador no final da partida. Um dos aspectos positivos disso é que nunca fica muito claro quem está na frente. É comum reviravoltas na contagem final, até porque as pontuações costumam ser equilibradas, sem grandes discrepâncias entre os jogadores.

Uma possibilidade digna de nota que o jogo oferece e que pode ser um enorme diferencial é pegar mais cartas de objetivo secreto. Não é algo fácil de fazer e não se pode jogar contando com isso, aqui temos uma dose de fator sorte presente, pois depende de cartas de pássaro com esse efeito.

Com 170 cartas únicas no jogo, a maioria delas não iram aparecer durante a partida, isso obriga o jogador a trabalhar com as possibilidade apresentadas no momento. Isso dá uma rejogabilidade boa para o jogo, existe uma boa variedade de cartas de objetivo também, mas também não permite um planejamento muito rigoroso. Um bom uso da sorte, ao exigir flexibilidade do jogador, por mais que existam mecanismos de mitigação. É um equilíbrio delicado.

Os efeitos das cartas são de fácil compreensão e combinação. O que vai variar é eficiência. O desafio é fazer mais com menos. Até porque a quantidade de cartas jogadas ao longo de uma partida é bem limitada. É preciso montar um bom efeito em cadeia que traga, além de bons ganhos, economia de ação.

OS MAIS BELOS PÁSSAROS

A beleza de Wingspan é uma das coisas que chamam atenção e foi o que me fez prestar atenção nele. A torre de dados em formato de casinha de pássaros e os mini ovos se destacam bastante em todas as fotos que vemos do jogo. Porém, o que mais impressiona é a arte dos pássaros em si.

São 170 cartas de diferentes pássaros. Não há repetição.

Muito acertada a opção pela utilização de desenhos realistas, passando aquela sensação das ilustrações científicas vistas em livros. Acho que isso dá ao jogo uma conexão com a realidade maior até do que se tivesse sido usado fotografias dos pássaros, por causa justamente desse aspecto científico.

Existe uma impressão meio errada de que o melhor meio de representação do real seja através da reprodução da imagem exata conforme captada pelos olhos humanos. Claramente a ciência não concorda com isso ou já teria aposentado uso da ilustração em favor da fotografia. Por que isso não acontece?

Pesquisando sobre o assunto achei uma definição muito esclarecedora. O ilustrador cientifico Fernando Correia assim coloca a questão (leia mais):

“Enquanto a fotografia é holística na sua forma, pois retém absolutamente tudo, mesmo o que é ruído visual, a IC é estrategicamente seletiva, isto é, um documento de síntese e reflexão, capaz de induzir de forma mais efetiva a percepção e assimilação dos conteúdos visuais e conhecimentos nela encerrados.”

Mas o talento das ilustradoras Ana Maria Martinez Jaramillo, Natalia Rojas e Beth Sobel não se limita apenas a arte dos pássaros, a ilustração do tabuleiro individual é belíssima. Talvez as informações de jogo dispostas sobre ela façam com que sua arte passe um pouco despercebida num primeiro momento. Ainda mais em um jogo em que para onde se olha se vê capricho e beleza em praticamente todos os detalhes.

O jogo vem com uma caixa linda com tampa para acomodar as cartas e elas continuam cabendo mesmo depois de sleevadas. É muito capricho em um item que nem é usado durante a partida em si. Apenas a tampa é usada como bandeja para exposição das cartas de pássaro disponíveis para compra.

Pode sleevar sem medo que continua cabendo perfeitamente.

Vários itens de Wingspan poderiam estar ausentes sem maiores prejuízos: a própria bandeja que acabo de mencionar, a torre de dados do comedouro e os mini ovos que poderiam ser muito bem tokens como são as comidas. Parece que só escapou a essa atenção minuciosa com os detalhes a cartela de pontuação, que destoa do restante. Meu primeiro pensamento quando vi foi que o orçamento do jogo tinha acabado.

Os famosos ovinhos coloridos de Wingspan.

CONCLUSÃO

Wingspan vem com indicação de 1-5 jogadores. Eu sou uma entusiasta de modos solos, mas aqui creio que não funcionou. Eu li as regras algumas vezes e simplesmente desisti porque me pareceu extremamente chato e sem sentido. Já com 5 jogadores, eu achei que a partida fica longa demais e o espaço entre as jogadas muito grandes. Principalmente na metade final quando os jogadores tem muitas cartas para serem ativadas a cada ação.

Eu gostei bastante do jogo com 2 jogadores, um aspecto que para mim é fundamental, pois é a minha configuração de partida mais comum. As alterações de regras são mínimas, eu não gosto de jogos em que quase é preciso aprender um conjunto novo de regras.

Com 3 ou 4 jogadores, Wingspan concede sua melhor experiência. Apesar de não ser um jogo de elevada interação, ela existe em uma boa medida. Os jogadores não tem como atacar uns aos outros, seria até anti-temático isso, toda a relação é indireta. Existem efeitos de cartas de pássaros que são ativados na vez de outro jogador, mas eles apenas trazem benefícios para o dono da carta, sem prejuízos para o outro jogador.

Eu gosto de jogos com essa característica em que cada um faz o seu sem maiores interferências. O maior desafio não é o outro, apesar da competição pela maior pontuação final irá definir o vencedor, a questão está mais em como montar a sua estratégia visando a criação do melhor sistema otimizado possível com as ferramentas disponíveis.

Assista também ao nosso vídeo sobre Wingspan:

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