Entrevista: Editora O Capturador

O Capturador é uma editora nova no mercado e que chega com uma proposta  bem diferente e interessante, trazer para o público brasileiro jogos com temática de Ficção Científica, Terror e Visual Anime, o que não costumamos ver sendo lançado por aqui. A editora carioca lançou, no início deste ano, seus 6 primeiros títulos, formando um catálogo inicial que é uma boa amostra de sua visão. Vocês  já podem conferir a análise de Don’t Turn Your Back, primeiro título que selecionamos para testarmos. Para conhecermos melhor a editora, propomos a entrevista que vocês conferem a seguir.

Deck-Building de Terror foi o primeiro jogo da editora O Capturador analisado aqui no Turno Extra.

Quem é O Capturador? 

Na realidade, O Capturador é apenas uma única pessoa. Até porque, se fossem várias, seria Os Capturadores (piadinha ruim, admito). Tem mais pessoas que ajudam, nem sempre tem como fazer tudo sozinho, mas a empresa formalmente só tem uma pessoa mesmo. Logicamente, se houver um crescimento, esse número tenderá a aumentar junto (assim espero, rezemos e trabalharemos para isso).

Eduardo H. C. Dias, dono da editora O Capturador.

O Capturador começou com venda de estatuetas de resina, como foi o caminho até chegar nos boardgames?

Comecei com a ideia inicial de comercializar algum produto que fosse incomum aqui no nosso mercado, com isso veio a ideia da comercialização das estatuetas de resina, pois tinham qualidade muito acima do que costumávamos ver por aqui. Naquela época, estava mais tranquilo importar e comercializar os produtos, pois o câmbio era muito favorável.

Conforme o tempo foi passando, tive a ideia de procurar um novo foco já que haviam alguns problemas acontecendo referentes a comercialização das estatuetas, o cambio começou a dificultar demais trazer da Inglaterra e a nossa fornecedora nos Estados Unidos veio a fechar após 38 anos de produção, percebi que era finalmente a hora de partir para uma nova empreitada.

Já estava me preparando para isso, inicialmente pensei em RPG, mas como vi que havia um pessoal produzindo por aqui. Voltei minha atenção para os boardgames e cardgames, pois percebi que havia muito mais possibilidade de obter títulos interessantes devido a quantidade muito maior de boardgames e cardgames existentes do que de RPGs. A ideia de lançar alguma coisa no ramo de RPG ainda existe, mas não será o foco principal da empresa.

Diversidade de possibilidades trouxe empresa para mercado de jogos de mesa.

São dois produtos bastante distintos. Como conciliar? Pretende manter assim?

Neste momento, estamos com uma quantidade de estatuetas ainda em estoque. Como não há mais aquisição de novas peças, então com o tempo deverá acabar. São quantidades pequenas, porém em variedade grande. Vamos manter ainda esses dois focos juntos até acabar o estoque ou reduzi-lo bastante. Mas o foco principal será a publicação dos jogos.

Quanto tempo levou desde a ideia inicial até entrarem efetivamente no mercado?

Depende de qual das áreas esteja se referindo. A parte das estatuetas foi relativamente rápida, a dos cardgames e boardgames foi muito mais demorada. A de venda de estatuetas foi algo em torno de 3 meses. Já a de jogos levou mais de três anos.

Qual foi o maior desafio enfrentado?

Não diria que houve um desafio que poderia ser classificado como o maior, mas constantemente surgem desafios diferentes a serem enfrentados. Se fosse classificar algo como maior, acho que seria ser uma empresa formada por uma única pessoa. A cada momento tem algo a ser resolvido e várias coisas precisam ser descobertas, examinadas ou estudadas, antes de implementadas.

Quem passa ou passou por isso sabe como é complicado ter que lidar com contratos, produção, importação, desembaraço, cuidar do site, lidar com outras empresas intermediárias, armazenamento, empacotamento, correios, etc. Muitas vezes sem ter nenhum apoio ou alguém com conhecimento para lhe indicar o caminho ou a melhor forma de se resolver algum problema ou situação.

O Capturador escolheu seguir uma linha bastante arriscada, trazendo títulos sem grande apelo entre o público geral de boardgames. Como chegaram a essa decisão?

Acredito que existe uma quantidade de títulos que são bons, mas que passam muito despercebidos pelo público ou as editoras os deixaram de lado. Creio que o mercado pode vir a se interessar por esses títulos, mas sei que é uma caminhada longa, pois existe ainda uma desconfiança entre revendedores e público. Nem tudo agrada a todos, isso é normal. Existem jogos que possuem muitos apreciadores, mas uma parcela do público não gosta, seja porque as mecânicas não lhe agradam ou porque o tema não lhe chama a atenção.

O Capturador aposta em títulos de qualidade, porém ainda desconhecidos do grande público.

Entretanto, mesmo os jogos hoje conhecidos também passaram por período de total desconhecimento do público. Lógico que dependendo da empresa, o gasto com marketing será incomparavelmente maior do que o de empresas pequenas como a minha. O interessante é que temos diversos casos de jogos que possuem uma determinada origem e ficam desconhecidos até serem relançados por uma outra empresa. Depois disso, fazendo um sucesso enorme, o que indica o quanto o jogo possui qualidade, mas só não atingia um público maior por desconhecimento.

Quem é o público-alvo da O Capturador?

Diria que é um público interessado em conhecer e explorar o que está sendo produzido para além da limitada fronteira do que é tido como hype e vendido como melhor ou única opção.

Por que começar lançando tantos títulos ao mesmo tempo?

Essa não foi a ideia inicial, mas as licenças estavam comigo e havia a ideia de realizar um cronograma de lançamentos. O problema foi a insistência em tentar produzir no Brasil, o que levou a bastante perda de tempo entre procuras e espera de respostas. Os prazos ficaram apertados, então tive que partir para produção fora do Brasil mesmo.

Dificuldades na produção acabaram por fazer a editora entrar no mercado já apresentando um catálogo bem diversificado.

A opção de produzir tudo junto fez mais sentido do que produzir tudo separado, mas com pequenos intervalos de tempo. Isso trouxe muitas facilidades, mas também outras dificuldades. Uma das facilidades foi manter uma qualidade de produção mais uniforme entre os jogos e o custo de produção pode ser diminuído. Uma das dificuldades foi que como as editoras originais são diferentes algumas exigências são específicas, isso causou atraso na produção como um todo já que estavam sendo produzidos juntos.

Como foi o processo de seleção dos títulos a serem lançados?

Passei um bom tempo vendo diversos títulos e pesquisando quais seriam interessantes e como seria a produção. Depois parti para entrar em contato com as empresas para saber quais estariam disponíveis.

Nisso diversos títulos precisaram ser abandonados. Alguns até hoje gostaria de produzir, mas não consegui contato com a empresa. Tem também algumas empresas que, aparentemente, só fecham acordo se for pessoalmente, através de algum evento ou convenção. As tentativas de contato de outra forma são ignoradas.

Lógico que outras dificuldades apareceram, como valores elevados de royalties, condições muito difíceis de serem atendidas ou até desconfiança da editora responsável pelo jogo. A pergunta “Qual é a experiência que vocês tem no lançamento de jogos?” não é incomum. Além disso, muitas querem saber quantos jogos serão produzidos e quantidades pequenas no conceito deles já significa uma rejeição instantânea.

O interessante é ver que alguns títulos que haviam recebido como resposta que não seriam licenciados nunca, agora aparecem como anunciados por outras editoras aqui, o que indica que pode ter sido uma questão do momento em que entrei em contato.

Para quem gosta de jogos japoneses, a presença de um jogo da Arclight Games no catálogo chama atenção. Planos para outros títulos da editora?

Sim. Alguns estão sendo negociados neste momento. No entanto, vários serão muito difíceis de serem licenciados. Em breve, serão divulgadas as próximas licenças contratadas.

Primeiro jogo da Arclight Games, uma das maiores empresas japonesas, lançado no Brasil.

Ainda dentro do assunto jogos japoneses, a editora tem planos para outros jogos que não sejam necessariamente Visual Anime? O mercado oriental tem jogos bem diferentes do que costumamos ver por aqui.

A questão do visual nem fora o foco inicial, mas foi uma coincidência, uma vez que determinadas empresas fazem os seus jogos com esse visual. A já citada Arclight Games, por exemplo, lança todos os jogos que são de designers japoneses dessa forma. Os jogos que ela não lança dessa maneira, costumam ser jogos que ela licencia de outras editoras.

Pensando nas editoras asiáticas que gostaria de ver tendo jogos lançados no Brasil.

Temos muitos jogos lançados aqui que são orientais e tinham visual originalmente em anime, mas como foram licenciados para empresas americanas, houve substituição por outro visual. O melhor exemplo disso é o Love Letter, que ganhou aquele visual mais sóbrio da AEG, assim como todos os jogos orientais licenciados pela editora.

Cartas da edição japonesa de Love Letter, que também acabou sendo publicada em inglês.

A exceção, no nosso caso, foi o Veneno do Knizia. Foi uma opção ser feito nesse visual, justamente para manter uma maior uniformidade entre os lançamentos. Porém, os outros dois títulos que não eram orientais não seguem esse visual. Não temos a ideia de só lançar nesse estilo, vai depender do visual original e das licenças que adquirirmos.

Veneno, de Reiner Knizia, chega ao Brasil com 2 versões de arte, uma de Fantasia e outra Sci-Fi.

O Capturador lançou o The Manhattan Project em parceria com a Pensamento Coletivo e, quem acompanha a editora deve ter percebido que, alguns dos títulos lançados por vocês haviam sido anunciados por eles antes. Como é a relação de parceria entre as duas editoras?

Conheço pessoalmente o Felipe Cunha, dono da Pensamento Coletivo, há muitos anos. Na realidade, eu que apresentei o RPG para ele e para outros conhecidos. Eu propus a ele uma parceria já que estava naquele momento de começar a migrar de foco na empresa e acertamos a produção do The Manhattan Project.

Eu estava com as licenças de três jogos e colaborei com ele para a realização do Manhattan, mas todo o processo de produção propriamente dito daquele jogo ficou com ele e durante esse momento chegamos a anunciar os três jogos que eu tinha a licença. Mas como fora ele que anunciou no estande da Pensamento Coletivo no Diversão Offline, acabou que ficou no entendimento geral de que seria a Pensamento Coletivo que lançaria os jogos.

Mas aconteceu todo aquele atraso de lançamento que comentei anteriormente e por causa disso, o foco da Pensamento Coletivo ficou com os lançamentos de RPGs licenciados por eles. Eu parti então para a produção dos jogos independentemente.

Temos visões muito diferente de como lidar com toda essa parte de negócio, por isso, acabamos ficando separados. Talvez, futuramente, possamos fazer alguma parceria. Assim como não tenho empecilho em formar parceria com outras editoras, se assim for vantajoso para ambas as partes.

Algum plano de lançamento futuro que já possa ser comentado, mesmo que bastante superficialmente, ou ainda é muito cedo para isso?

Tem a questão do jogo Entropy, que deveria ter sido lançado, mas houve toda uma série de complicações com a licença que estou tentando resolver agora, então espero que tudo seja resolvido o mais breve possível. Tanto é que esse foi um dos jogos mostrados naquele Diversão Offline citado anteriormente e que está como Projeto no site da empresa.

Tem dois jogos de cartas pequenos que devem entrar em produção o mais breve possível, assim que a questão do Coronavírus na China for resolvida. A informação será divulgada no site e nas mídias da editora quando a produção começar.

Os demais jogos estão sendo negociadas as licenças, então não posso informar ainda enquanto não houver formalização dos contratos.

Visite o site da O Capturador para saber mais sobre seus jogos e também para poder adquiri-los. Em breve, mais análises de títulos lançados pela editora aqui no Turno Extra. Fiquem ligados!

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