Análise: um clássico chamado Heroquest

Os jogos de tabuleiro fizeram parte da infância de uma parcela significativa dos integrantes atuais do nosso hobby. Ao se tornarem adultos, não foi uma questão de descobrir que eles existiam, mas de que haviam crescido também. Todas as surpreendentes inovações dos jogos mais modernos acabaram levando a um certo desprezo pelos títulos do passado. Porém, contrariando essa tendência, Heroquest segue até os dias de hoje sendo muito querido e desejado. Qual será o segredo de tamanha longevidade? O que o faz diferente dos demais?

 

Um clássico que fez parte da infância de muitos jogadores.

Heroquest foi criado em 1989 pela Milton Bradley, em parceria com a Games Workshop, para aproveitar o enorme sucesso que Dungeons & Dragons fazia na época. Stephen Baker, game designer do jogo, utilizou um sistema de regras bem simples para tornar acessível a todos a experiência das populares aventuras de fantasia medieval. Mais do que isso, ele tornou possível explorar masmorras, matar monstros e achar tesouros de um modo interativo e visual muito mais intenso, uma imersão que agora não dependia mais apenas da narrativa.

Se impressiona visualmente ainda hoje, imagina na época em que foi lançado.

Os brasileiros tiveram que esperar até 1994 pelo lançamento da versão nacional realizado pela Estrela. Porém, para tristeza de muitos jogadores, a gigante do ramo de brinquedos resolveu substituir as miniaturas de plástico por imagens impressas em papelão, entre outras alterações na qualidade do material original. Uma provável tentativa de reduzir os custos elevados do jogo, que possui uma ampla quantidade de componentes, entre eles seus famosos móveis 3D para montagem de cenários.

Miniaturas dos Heróis da versão original do jogo.

COMO JOGAR

Heroquest é basicamente um jogo de rolagem de dados, eles são usados tanto para movimentação quanto para combate. O que significa que possui fator sorte e repetição bem elevados. Isso é reforçado ainda mais por ter sido criado para ser jogado em formato campanha, são 14 missões no total. Se por um lado é interessante poder evoluir os personagens, dando a eles equipamentos melhores e guardando itens para uso posterior, por outro evidencia mais os problemas citados. Claro que o jogador sempre tem a opção de escolher uma missão qualquer e jogar, mas aí a experiencia não será completa.

Conjunto de dados utilizados no jogo.

Para começar uma partida, ou campanha, é necessário antes de mais nada definir os papéis dos jogadores, um deles deverá ser o Mestre da Masmorra enquanto os demais serão os destemidos Heróis que irão explorá-la. Heroquest comporta de 2 a 5 jogadores, sempre mantendo essa mesma divisão. Feita a escolha de quem será quem, cada jogador deverá pegar os materiais relativos aos seus respectivos papéis.

Ficha de cada um dos Heróis disponíveis no jogo.
Escudo utilizado pelo Mestre da Masmorra.

Os jogadores que são Heróis pegam a ficha com as informações básicas de seus  personagens e mais uma ficha em branco para anotar sua evolução. Eles deverão trabalhar cooperativamente para concluir o objetivo de cada missão. O jogador que ficar com o papel de Mestre da Masmorra será o responsável por controlar os monstros e revelar os elementos presentes na masmorra a medida que os Heróis a explorarem.

A parte de dentro do escudo traz um resumo de regras.
Monstros presentes no jogo e suas respectivas cartas.

Uma das coisas que achei mais legais no Heroquest foi justamente isso do tabuleiro começar vazio. A peça de Escada com os Heróis é posicionada em uma sala, de acordo com o informado em cada missão, e isso é tudo que começa revelado no tabuleiro. Todo o resto só vai sendo colocado aos poucos, ao longo da partida, conforme as escolhas de movimentos dos jogadores. Tudo o que vai sendo adicionado no tabuleiro é de acordo com a visão do personagem, o que ele vê ao entrar em uma nova sala ou corredor.

Cada missão possui um mapa específico que é controlado pelo Mestre da Masmorra.

Na sua vez, o jogador poderá realizar uma ação, antes ou depois, do seu movimento:

Mover: O jogador irá rolar 2D6 e andar, de acordo com o resultado, em sentido horizontal ou vertical para uma direção à sua escolha. O movimento ignora locais ocupados por Heróis de outros jogadores, mas é imediatamente interrompido ao encontrar um monstro.

e

Atacar: O que vai determinar a quantidade de dados rolados no ataque será a arma específica equipada no personagem. Em caso de um ataque bem-sucedido, o monstro tem ainda a chance de se defender. A quantidade de dados rolados na defesa vai ser diferente de acordo com cada tipo de monstro.

Lançar Magia: Ação disponível apenas para os personagens Mago e Elfo, pois são os únicos que possuem cartas de magia. Dependendo do efeito de magia, ela poderá ser lançada sobre monstros, outros Heróis ou até mesmo o próprio personagem. O único fator limitante é ter linha de visão para o alvo. Cada carta de magia é uso único na partida.

Tipos de cartas de magia presentes no jogo.
Alguns exemplos de cartas de magia.

Buscar:  O jogador tem três diferentes tipos de busca à sua disposição, mas ele só pode realizar apenas uma delas a cada vez que optar por esta ação.

– Tesouro: Só pode ocorrer dentro de uma sala sem monstros, uma carta é puxada de um baralho específico e pode resultar em algo positivo ou negativo para o jogador.

Cartas que compõem o baralho de Tesouros.

– Passagem Secreta: Ocorre dentro de uma sala ou corredor, sendo seu sucesso completamente dependente da sorte, o Mestre da Masmorra irá consultar o mapa e informar se existe ou não uma passagem no local indicado.

Armadilha: Uma sala ou corredor pode conter um perigo que será acionado através do movimento do personagem ao passar por ele ou da realização de algum outro tipo de busca. Este tipo de busca serve para evitá-lo. Seu funcionamento é igual ao da busca anterior.

Desarmar Armadilha: Após uma armadilha ter sido revelada através da opção correspondente na ação de Buscar, é necessário então a utilização da presente ação para que o perigo seja definitivamente eliminado do caminho dos Heróis.

Após todos os Heróis completarem seus turnos é a vez do Mestre da Masmorra realizar a ativação de todos os monstros presentes no cenário naquele momento. Por isso, não é uma boa ideia separar muito os Heróis e sair explorando rapidamente, pois os jogadores podem acabar tendo que em enfrentar uma grande quantidade de monstros simultaneamente.

Manter os Heróis juntos garante uma exploração mais segura.

Após o término de cada partida, os jogadores podem utilizar os tesouros encontrados e as recompensas recebidas para adquirirem equipamentos melhores. Esses recursos podem ser acumulados durante várias partidas, pois alguns itens são bem caros. O que não seria um problema se não fosse pelo fato de que poucos oferecem uma melhora realmente significativa. Os de defesa são são apenas desperdício de recursos.

Equipamentos disponíveis para melhorar a performance de seus Heróis.

Quando um personagem morre durante a partida, ele retorna na próxima em sua versão inicial, perdendo assim todos os recursos acumulados, equipamentos comprados ou quaisquer outros itens recebidos. Portanto, investir na melhora do personagem acaba não sendo algo tão empolgante quanto deveria e nem a perda do investimento feito gera a devida frustração. Acaba sendo algo feito bem no automático.

MINHA EXPERIÊNCIA

Ganhei esta cópia do Heroquest já faz algum tempo de uma pessoa que estava justamente se desfazendo de jogos da infância, porém nunca tinha tido ânimo suficiente para colocá-lo na mesa. Não sou particularmente fã de Dungeon Crawler e fantasia medieval em geral. Também não foi um jogo que tive contato quando criança, então não tem aquele apelo nostálgico. A minha motivação foi apenas a curiosidade mesmo de justamente tentar entender o que destaca tanto Heroquest de outros jogos da mesma época.

O primeiro Dungeon Crawler com que tive contato foi Dungeons & Dragons: The Legend of Drizzt. Estou ignorando propositalmente Zombicide. Gostei bastante da experiência e quis durante muitos anos ter o jogo. Porém, uma experiência de campanha completa mesmo só vim a ter com Arcadia Quest e não foi algo que me agradou. Assim sendo, cheguei para jogar Heroquest com uma expectativa mediana. Isso também porque tem o desconto de ser um jogo mais antigo, então coração aberto para relevar possíveis problemas.

Depois de muito tempo postergando, o atual momento de quarentena acabou me fazendo finalmente colocá-lo na mesa. Pareceu uma boa ideia experimentar um jogo mais longo e com uma proposta mais imersiva. Em termos narrativos, as missões de Heroquest não tem muito a oferecer. Porém, a experiência de rolar os dados para andar pela masmorra e enfrentar monstros, a expectativa e a surpresa do que me aguardava em cada sala e corredor, se mostrou bastante significativa.

Diversão que superou expectativas.

Eu joguei controlando todos os Heróis e o papel de Mestre da Masmorra ficou com o Felipe, que mora comigo. As primeiras missões foram muito boas, mas depois disso o jogo começa a dar sinais de cansaço, com algumas missões genéricas e repetitivas. Porém, mesmo entre elas, ainda teve aquelas mais caprichadas e divertidas que se destacavam e mantinham a motivação. O final é que realmente deixou a desejar e gerou certa frustração ao não oferecer um desafio a altura para concluir a experiência do jogo.

CONCLUSÃO

Achei Heroquest uma experiência muito legal, superou as minhas expectativas. Não é apenas o saudosismo que o mantém até hoje sendo um jogo bem avaliado, realmente o sistema de exploração dele é muito bom, alguns jogos mais recentes poderiam inclusive aprender algo sobre isso.

Jogar Heroquest é uma experiência única.

Entretanto, não é um jogo que oferece uma boa rejogabilidade, depois que acaba não dá vontade de voltar a jogar. Até pensei em mantê-lo para talvez jogar com outras pessoas ou como Mestre da Masmorra, mas depois realmente não me pareceu tão interessante e acabei decidindo vender mesmo. Apesar disso, acho que super vale a pena conhecer o jogo, se houver uma oportunidade.

Confira também a nossa análise em vídeo:

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *