Saiba o que são os Afrogames

Sexta-feira (20) foi o dia da Consciência Negra, por esse motivo ao longo de toda a semana passada postamos um vídeo por dia apresentando diversos jogos com temática negra aqui no Turno Extra. Para fechar, nós convidamos 3 game designers negros: Rennan Gonçalves (Grafito, Masai, Black Power), Talita Rhein (Dogo Dash) e Sanderson Virgolino (Bushido, Cangaço, Diário de Assisi) para uma conversa sobre Afrogames, termo que surgiu em meio as discussões promovidas sobre representatividade negra na Gen Con Online.

A Gen Con Online nos permitiu um espaço de discussão e integração enquanto comunidade nunca visto anteriormente. A questão não surgiu na feira, mas atingiu toda uma nova dimensão nela. Não apenas pela incrível ampliação de alcance, afinal estamos falando de uma das maiores feiras de jogos do mundo, mas também por nos colocar em contato entre nós mesmo.

Ainda somos bem poucos, mas graças a Gen Con Online, agora estamos mais mobilizados, tendo o conhecimento de que não estamos sozinhos e juntos podemos nos ajudar. Cada um, na sua área de atuação, fazendo a sua parte para pensarmos soluções que efetivamente ampliem a nossa presença no hobby.

Essa ampliação passa pela questão de uma reflexão mais aprofundada a respeito do que é a representatividade e de como ela se constrói para que tenha efeitos relevantes. Assim chegamos a questão do protagonismo, pois traz o negro para esse lugar de contar sua própria história, não sendo mais parte apenas da história do outro.

Um marco importante na evolução e sistematização do pensamento sobre questões de representatividade negra foi o Desafio da Consciência Negra promovido no ano passado pelo EDIJ. Em que, pela primeira vez, vi efetivamente uma reflexão sobre jogos com protagonismo negro, pois esse era um dos pré-requisitos básicos, o outro era a utilização da mecânica da mancala, que é de origem africana.

Foi no Desafio da Consciência Negra que surgiu o Diário de Assisi do game designer Sanderson Virgolino, jogo que vejo como o primeiro Afrogame com a qual tive contato. O primeiro jogo com temática negra que não era abstrato e nem sobre escravidão. Aquilo foi tão significativo e impactante para mim enquanto pessoa negra. Até então eu nunca havia refletido de fato sobre como haviam outros caminhos, apesar do afrofuturismo não ser nenhuma novidade para mim.

Não há nenhum problema em tratar do tema da escravidão, o game designer Valter Bispo, em seu jogo Quilombolas, está fazendo isso de uma forma muito boa. A minha questão é não ficarmos limitados a isso, enxergarmos e mostrarmos para outras pessoas que jogos com temática negra podem ser muito mais, existe todo um universo de possibilidades inexploradas.

O game designer Rennan Gonçalves tem trazido em seus jogos um pouco dessa diversidade que podemos ter dentro do que chamamos de temática negra. Algo que não é limitado apenas aos assuntos abordados, mas também percebemos nas mecânicas e estilos escolhidos.

Todos os game designers até agora citados no presente texto são negros, mas isso não significa que temáticas negras só possam ser exclusivamente abordadas por game designers negros. Porém, um fato importante de se ter em mente é que a visão que se terá do tema e por tanto sua forma de abordagem serão diferentes por uma questão de vivência.

Nesse sentido, podemos pensar nos Afrogames não apenas como um estilo determinado por suas temáticas e mecânicas, pois essas serão diversas. A diferença entre os jogos de estilo europeu e americano não se resume a essas questões, como uma análise superficial poderia nos levar a acreditar. Existe toda uma lógica de visão de mundo que vai nortear essas escolhas.

Dessa forma, o que define os Afrogames é uma forma diferente de visão de mundo que vai moldar a forma como os temas e mecânicas são escolhidos e reunidos na construção do jogo. O conceito ainda é muito novo e ainda temos uma amostra de jogos bastante limitada.

Mas ele surge da necessidade de encontrar novos caminhos para a construção de jogos que preencham um vácuo existente de representatividade e para isso é preciso uma nova forma de pensar. Afrogames nos colocam nessa posição de pensar na questão da pessoa negra, mas pode ser uma visão que vai guiar formas diferentes de construir jogos em outros temas não diretamente relacionados.

O texto acima é apenas um pouco da minha visão sobre o assunto, assistam ao vídeo para saber sobre a questão através de gente que entende disso bem mais do que eu:

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