Análise Prévia: Kardnarok, da On The Table

Kardnarok é o mais novo título do game designer Alexander Francisco (Deusastrados e Drakkar Tum Tum, ambos pela TGM Editora) e está sendo lançado através de campanha de financiamento coletivo no Catarse pela editora On The Table. Trata-se de um jogo de cartas em que cada jogador representa um reino nórdico lutando durante o Ragnarok para conquistar a soberania em Midgard. Suas mecânicas são Gestão de Mão, Force sua Sorte e Toma Essa e comporta de 2 a 4 jogadores.

NOTA DE AVISO: Kardnarok está sendo lançado dentro do atual contexto de pandemia e seguindo o que poderíamos já chamar talvez de “novo normal” dentro do hobby, nosso acesso ao jogo foi apenas através do Tabletopia. Por isso, o que apresentamos aqui é uma análise prévia baseada apenas nas regras, sem que tenhamos a possibilidade de comentar sobre seus aspectos físicos. Isso deve ocorrer mais para frente quando da entrega do jogo físico.

A temática nórdica é extremamente popular, mas isso pode ser uma faca de dois gumes, pois enquanto tem potencial para atrair muitos fãs, também pode com a mesma facilidade afastar aqueles que já se encontram um pouco enjoados do assunto. Eu confesso que faço parte do segundo grupo. É um tipo de tema que já foi explorado a exaustão e, como sempre acontece nesses casos, levou a uma série de produtos medíocres.

Ainda bem que esse não é o caso de Kardnarok, o que me trouxe um certo um certo frescor em relação a esse tema. Ainda não me empolga como já o fez no passado, mas a qualidade do jogo em sua parte mecânica garantiu o seu lugar na minha coleção e ainda me fez voltar a ter um olhar um pouco mais simpático para essa temática.

Antes de entrar na explicação das regras do jogo em si, acho válido algumas considerações sobre a forma como o tema foi trabalhado. Isso pode não ter muita importância para quem, assim como eu, se interessou mais pela jogabilidade em si, entretanto é importante para aqueles que apreciam a mitologia nórdica.

Como já dito mais acima, o tema é extremamente popular, isso leva a uma série de criações mais preocupadas com o lucro potencial, sem que tenham o devido cuidado com a exatidão. Apesar de não ser uma profunda conhecedora do tema, sei que isso não será um problema em Kardnarok, pois o seu autor é um grande apreciador da mitologia nórdica e foi realizado um trabalho cuidadoso de pesquisa.

Além de toda a questão de precisão, coerência e conhecimento que é apresentado no jogo, fazendo não só dos deuses, mas também de personagens históricos, um outro fato bem legal é que todas as cartas do jogo virão com QR Code que levaram o jogador para uma página que está sendo construída com o auxílio do pessoal da Yggdrasil – Estudos Nórdicos que irá trazer mais informações sobre os elementos de cada carta.

COMO JOGAR

Em Kardnarok, cada terá um cartão individual dupla-face, representando o seu Reino, com personagens masculinos e femininos de cada lado. O jogo possui 3 tipos diferentes de cartas a serem utilizadas: Heróis, Guerreiros e Nornas. O que determina a quantidade de cartas na mão dos jogadores são os cartões de Ragnarok que são separados em 2 níveis. No centro da mesa fica o cartão Contador de Batalha.

Visão geral dos componentes de Kardnarok.

Durante cada um dos níveis do Ragnarok, cada jogador deverá realizar 1 ataque a qualquer um dos Reinos adversários. Além de determinar a quantidade de cartas permitidas na mão dos jogadores, cada cartão de nível traz um benefício de bônus acumulativo. De uma nível para o outro, o número de cartas permitidas na mão sempre irá diminuir.

Exemplos de cartões de Ragnarok.

As cartas de Heróis não contam para o limite de mão, apenas Guerreiros e Nornas, que podem ser compradas na proporção escolhida pelo jogador. No início na partida, cada jogador recebe 2 cartas de Heróis e a cada nível do Ragnarok pode realizar uma troca.

Os dois diferentes tipos de cartas que formarão a mão dos jogadores.

As cartas de Heróis ficam abertas no Reino de cada jogador, apenas as cartas de Guerreiros são baixadas fechadas. Todos os jogadores devem estar com suas cartas baixadas independente de ser a sua vez ou não. Além das cartas, os jogadores possuem também 3 fichas de Ritual (Odin, Thor e Frey).

Cada Reino possuirá uma moeda de prata de valor variável que deverá ficar visível para todos. Nas Batalhas entre os Reinos, o vencedor levará a moeda do perdedor, que então será substituída por uma nova de modo aleatório. Essa será a principal forma de pontuação de jogo. A outra será através de moedas de bronze que os jogadores iram negociar uns com  os outros em troca de apoio nas Batalhas.

Apenas o Herói revelado gera uma tensão de quais poderão ser os Guerreiros baixados.

Cada turno irá seguir a seguinte sequência de ações:

  • O jogador da vez escolhe um dos demais jogadores para realizar um ataque. Não há impedimento no jogo de se atacar um mesmo jogador mais de uma vez, porém isso é desencorajado, já que existe um bônus crescente para esse jogador que dificultam mais cada novo ataque.
  • Os jogadores irão realizar a escolha de seus Rituais. Cada deus concede um tipo de bônus diferente. Odin permite comprar 2 cartas Nornas, Thor permite baixar  2 quaisquer carta de Guerreiro como reforço e Frey concede 3 de Força. Um jogador não pode realizar Ritual para um mesmo deus duas vezes seguidas.
Ritual para Odin no exemplo.
  • Resolvido os Rituais, os jogadores podem baixar qualquer carta Norna pré Batalha que possuam e desejam utilizar, então os exércitos são revelados e a contagem de Forças de cada exército é realizada, sendo marcado o valor do somatório no Contador de Batalha.
Um exemplo de carta Norna jogada antes da Batalha.
Contador Batalha: o meeple azul representa o defensor e o meeple vermelho representa o atacante.
  • Os jogadores então poderão baixar reforços, que só podem ser cartas de Guerreiro do tipo Aldeão, e demais cartas Nornas para tentar alterar o resultado da Batalha. Não existe um limite de quantas cartas podem ser baixadas.
Pode ser jogada na formação do Exército, mas o ideal é seu uso como Reforço.
Pode ser jogada na formação do Exército, mas o ideal é seu uso como Reforço.
  • O recurso final que um jogador que está sendo derrotado tem é contratar um Mercenário para lhe auxiliar na Batalha. O jogador oferece uma determinada quantidade de moedas de bronze a sua escolha e pergunta qual dos demais jogadores pode/quer ajudá-lo. O Mercenário joga até 2 cartas Nornas e só recebe as moedas em caso de vitória. Após a contratação do Mercenário, a única carta Norna permitida de ser jogada pelo jogador é Magia de Freya.
Única carta Norna de uso permitido após a contratação do Mercenário.

Terminada a Batalha, o derrotado entrega a sua moeda de prata ao vencedor, que deverá pagar as moedas de bronze acordadas, se tiver contado com o auxílio de outro jogador como Mercenário. O derrotado compra uma nova moeda de prata, altera em uma posição seus marcadores de Defesa e Ritual (alteração também realizada pelo vencedor) e descarta todas as cartas envolvidas na Batalha, com exceção do Herói. O vencedor além do Herói salva também uma carta de Guerreiro a sua escolha.

Os jogadores recompõem suas cartas de Herói e Guerreiros em seus Reinos e o que foi o defensor na Batalha anterior escolhe um Reino para realizar seu ataque. Quando todos os jogadores tiverem realizado um ataque cada um, entra o cartão de Ragnarok nível 2. A moeda de prata de cada Reino são devolvidas ao saco após a conclusão do nível 1 e novas são compradas.

Ao passar de nível no Ragnarok, além de um novo efeito adicionado, ocorre a diminuição do limite de cartas. No entanto, os jogadores devem sempre fazer a reposição normal de suas mãos antes da revelação do cartão de nível 2. Isso os obriga a sempre terem de realizar descarte para se adequarem ao novo limite de mão. Terminada mais uma rodada de ataques, os jogadores farão o somatório dos valores das moedas de prata e as moedas de bronze para determinar o vencedor.

CONCLUSÃO

Para mim, equilíbrio é a palavra que define Kardnarok, tanto em temática quanto em mecânica. O jogo supera os desafios apresentados pelo seu tema, apresentando um resultado com potencial para agradar a todos os públicos, não exige demasiado aprofundamento de quem não tem muito interesse no assunto ao mesmo tempo que oferece um conteúdo substancial para seus fãs.

A arte de Kardnarok foi criada próprio game designer Alexander Francisco e confere ao jogo uma identidade visual bastante única, pois trata-se de um estilo bem diferente do que estamos em geral acostumados a ver em jogos. Achei que combinou bastante com o tema em si.

Se por um lado, Kardnarok utiliza um conjunto de mecânicas bem simples para entregar um jogo bastante acessível, por outro elas são utilizadas de forma a oferecer aos jogadores uma experiência estratégica satisfatória. Não é o tipo de jogo para ficar “queimando o cérebro”, mas também está muito longe de ser “bobinho”.

Bastante enxuto em suas regras e muito bem amarrado, o Mercenário é um ponto que merece destaque no jogo. Apesar de não ser uma ação obrigatória, ela acrescenta toda uma camada adicional de profundidade a ser explorada, pois coloca o jogador o tempo todo na dúvida entre usar suas cartas em Batalhas alheias e assim ganhar moedas ou guardá-las para suas próprias.

Além disso, o Mercenário também serve muito bem a função de deixar todos os jogadores o tempo todo atentos a tudo que ocorre na partida, mesmo quando não estão diretamente envolvidos nas Batalhas, pois sempre pode aparecer uma boa oportunidade para ganhar umas moedas.

Todo o processo de negociação que envolve a ação do Mercenário é extremamente divertido. Kardnarok consegue ser muito bem-sucedido em algo bastante difícil que é promover uma interação natural entre os jogadores. Independente das pessoas terem um perfil mais tímido ou mais expansivo, a adesão acaba sendo espontânea e motivada pelo próprio desenrolar da partida.

Kardnarok entrou em financiamento coletivo no Catarse em 01/12/2020 e sua campanha vai até 15/01/2021. No momento em que este texto está sendo escrito (03/12), o jogo está com 70% da meta atingida. Entre as primeiras metas a serem desbloqueadas estão: Animais de Combate e Novos Deuses. O jogo está saindo por R$115 e por R$149 junto com o Bushido (jogo de autoria Sanderson Virgolino lançado anteriormente pela editora On The Table).

Recebemos no sábado passado (28/11) no nosso canal no YouTube, Alexander Francisco (game designer) juntamente com Lucas Barbosa (um dos sócios da On The Table) e Nanda Sales (do canal Joga Mana) para bater um papo e jogar uma divertida partida de Kardnarok. Confira abaixo: 

Compartilhe:

Um comentário em “Análise Prévia: Kardnarok, da On The Table”

  1. Excelente e incrível análise do nosso jogo, de forma técnica e precisa! Estou encantado e honrado, mais uma vez, com os vídeos e textos do canal. 😀 Obrigado demais!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *