Análise: Por Favor, Não Corte Minha Cabeça, da Geeks N’ Orcs

Como eu já disse anteriormente em outro texto, sinto falta de uma maior diversidade de elementos nos boardgames com temática de terror, tudo acaba ficando resumido a Cthulhu e Zumbis. Adoro ambos, porém acho que já está muito saturado. Existem tantas outras possibilidades para serem exploradas. Então, quando fiquei sabendo sobre o Por favor, não corte a minha cabeça! fiquei  bem animada de cara. Ele tentar uma caminho diferente, fugindo do óbvio.

Continuar lendo Análise: Por Favor, Não Corte Minha Cabeça, da Geeks N’ Orcs

Compartilhe:

Análise: Cartas a Vapor, da Potato Cat

Cartas a Vapor é um jogo que chamou a minha atenção por dois motivos bastante inusitados dentro do mercado nacional: ter uma mulher como game designer e ser inspirado em um livro de Steampunk brasileiro – A lição de anatomia do temível Dr. Louison, do gaúcho Enéias Tavares. Acho que mesmo fora do Brasil ambas as coisas são ainda bastante incomuns.

Um encontro do Steampunk com personagens da literatura brasileira numa trama de crime, mistério e terror.

Como mulher dentro de um hobby predominante masculino sempre é um motivo de alegria encontrar outras mulheres que compartilhem do mesmo gosto que tenho por boardgames, melhor ainda quando elas começam a desenvolver atividades na área. É muito bom poder ver mulheres como donas de lojas, editoras, organizadoras de eventos, ilustradoras e também game designers. É enriquecedor para o hobby, pois agrega uma visão diferente.

Cartas a Vapor foi o primeiro jogo publicado pelo casal Kevin e Samanta Talarico. Para isso, eles fundaram a Potato Cat e viabilizaram o lançamento através de uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo. O jogo contou com a participação ativa do autor do livro em todo o processo de desenvolvimento, pois sua preocupação era que o Cartas a Vapor fosse acessível para todo o público.

Minha formação acadêmica em Letras, mas especificamente Literatura, sempre me faz ter grande interesse por qualquer tipo de adaptação de livros para outros meios. Isso combinado com a minha paixão por boardgames resultou em uma combinação perfeita. Apesar de não ser fã de histórias no estilo Steampunk, acho o conceito e a estética bem interessantes, principalmente para trabalhar em meios visuais.

Tendo em mente a ideia de ser acessível, Cartas a Vapor usa como base o baralho de cartas tradicional. O principal do jogo está na formação de sequências numéricas com as cartas, elas podem ser pares, ímpares ou corridas. Tais cartas numeradas que formarão a mão dos jogadores recebem o nome de Peças. O limite de sequências em jogo é 6 e elas podem ser formadas por até 6 cartas.

Uma partida de Cartas a Vapor em andamento.
Sequências numéricas válidas no jogo.

Existem 4 tipos de Peças diferentes no jogo: Pesadas (Vermelho), Leves (Marrom), Enfeitiçadas (Roxo) e Enferrujadas (Verde). Existe também a chamada Peça Brilhante, que funciona como um coringa. Cartas a Vapor utiliza cartas numeradas entre 1-8, porém os baralhos vêm completos para que os jogadores possam utilizá-los como um baralho estilizado para outros jogos de cartas tradicionais.

Tipos de cartas de Peças.

O modo como são fechadas as sequências e como as cartas serão utilizadas para comprar as cartas de Ferramenta mudam de acordo com cada missão do jogo. As missões são compostas de 3 cartas. Uma com o lore, outra com o objetivo de heróis e vilões e uma última que determina as condições de resgate e utilização das cartas. Isso garante a Cartas a Vapor uma ampla rejogabilidade, através de um número extenso de possibilidade de combinações.

O possui um total de 14 missões.

Cartas a Vapor é um jogo para ser jogado em times, um lado com os heróis e outro com os vilões. As cartas de personagem variam entre 1-3, tal variação permite equilibrar o jogo com qualquer número de jogadores, o que precisar ser igual é a soma total da pontuação total do time. Cada personagem possui uma habilidade única. Na hora de montar o time é bom que os jogadores busquem aqueles com maior sinergia.

Alguns dos personagens do jogo.

O esquema de times do Cartas a Vapor tem um lado muito bom que é o de permitir times com número de jogadores desigual. Então, se o número total de jogadores for ímpar ou ainda mais jogadores quiserem jogar em um dos lados, isso não será problema. O que dá uma flexibilidade bem maior do que se costuma verificar em jogos desse tipo. O problema é o clássico fator Alpha Player, questão recorrente em jogos com teor cooperativo em algum nível.

O número de ações que cada jogador irá ter depende da quantidade total de jogadores em cada time. As ações possíveis são: baixar carta de Peça, repor a mão (só se estiver vazia), construir ou usar Ferramenta e utilizar habilidade de personagem. As sequências de cartas de Peça compradas da mesa são de propriedade do time, não do jogador que a comprou. Portanto, a decisão quanto a sua utilização será coletiva, isso propícia muito o controle de um jogador sobre os demais. Principalmente, se tratando de um jogador mais experiente.

As missões possuem uma escala de dificuldade gradativa, o que em um primeiro olhar pode parecer bom, mas também pode ser ruim. Digo isso porque as missões iniciais possuem um fator sorte alto e podem passar uma ideia errada sobre o jogo. A primeira missão é encontrar uma determinada Ferramenta, então vira uma espécie de corrida. Porém, as missões posteriores vão crescendo em complexidade, sendo por isso bem mais interessantes.

Ferramentas exigidas na primeira missão.

A questão é o jogador não desistir nas iniciais e chegar até lá. Não que seja obrigatório jogar na ordem, cada missão funciona de maneira independente. Porém, creio que seja uma tendência mais ou menos geral seguir a ordem sequencial. Todavia após dominar as regras pode valer a pena pular as missões iniciais e partir para aquelas que se encontram do meio para o final.

Eu achei as Ferramentas em geral o ponto fraco do jogo, é bem comum acumular várias delas sem utilizar. Tem regra para evitar que o jogador fique com Ferramentas inúteis, porém mesmo assim ainda acho problemático. Principalmente, nas primeiras partidas, nas quais acaba rolando uma tendência de apenas ficar acumulando. Não existe um limite de quantas se pode ter e acontece de simplesmente esquecer um ou outro efeito útil que poderia ter sido utilizado. Saber usar bem as Ferramentas pode demandar algumas partidas.

Apesar da recomendação que dei de pular as missões iniciais após aprender a regra, o jogador não precisa se preocupar com falta de material no jogo. Além das variantes que vêm apresentadas no manual, Cartas a Vapor ainda vem com uma expansão que apresenta traz novos tipos de missões. Existe ainda a variante de cenário que adiciona as belas cartas abaixo.

Adiciona regras específicas. Na minha opinião, é o conteúdo extra mais legal do jogo.
Cartas especiais da missão da expansão que utiliza personagens de O Cortiço, romance de Aluísio Azevedo. Eu gosto muito desse livro.

A arte do jogo em geral não me agradou, principalmente a referente aos personagens. Eu acho a capa do livro muito bonita e preferia que o jogo tivesse seguido o mesmo estilo. Porém, não acho a arte ruim ao ponto de ser algum tipo de demérito.

As cartas de Peças até são bonitas, fornecendo um interessante baralho estilizado. O único problema em relação a elas é que os tons das cartas vermelhas e marrons ficaram bem próximas, o que pode gerar alguma confusão. Porém, nada que prejudique fundamentalmente o jogo, já que as cartas possuem ícones para diferenciar seus tipos.

Cartas de Peças organizadas nas sequências conforme determina as regras do jogo.

O jogo apresenta também problemas de variação de tonalidade das cartas que afetam também o verso das cartas, isso pode causar problemas para jogadores mais competitivos, ainda mais se tratando de um jogo de cartas. Isso prejudica o propósito de colocar como item adicional no jogo, baralhos tradicionais completos. Porém, no Cartas a Vapor em si essa é uma questão que não atrapalha em nada.

Tirando a questão pontual de diferença de tonalidade no verso de algumas cartas e tonalidade parecida em dois tipos de cartas específicos, nada há para reclamar em relação à qualidade material do jogo. A caixa é firme, sem ser exageradamente grossa, comporta todas as cartas de forma confortável. Parece ter espaço para cartas com sleeve, porém não posso afirmar se cabe ou não por não ter sleevado a minha cópia.

A caixa de Cartas a Vapor ainda vem com insert de verdade, não aquele papelão inútil que vem na maioria dos jogos. A divisória para acomodar as cartas é feita de um material rígido e revestido de um tecido que me pareceu ser veludo. Nunca tinha visto algo semelhante em jogos. Impressiona todos que veem pela primeira vez. Ainda sobre a caixa, ela possui um bom tamanho que permite carregar o jogo com facilidade para qualquer lugar. Ela também não é folgada nem apertada demais.

Componentes do jogo na caixa e manuais.

Cartas a Vapor está a venda nas melhores lojas do ramo. Na Game Of Boards, o jogo pode ser adquirido por R$139,9. Existe uma cópia dele na ludoteca da loja, então é possível testar antes de comprar.

Confira a explicação de regras que gravamos com Kevin Talarico:

Confira também a entrevista que fizemos com o Kevin e a Samanta Talarico:

 

Compartilhe:

Como foi o 38º Guadalupeças

Excepcionalmente em agosto, o Guadalupeças ocorreu no quarto domingo, em virtude do Diversão Offline. Por esse motivo, esperávamos uma edição mais vazia do que o habitual. E realmente, sentimos a ausência de várias pessoas que costumam estar mensalmente com a gente. Porém, apesar disso, tivemos um bom público. Várias pessoas que conheceram o evento por serem frequentadoras do shopping marcaram presença. Algumas já nos seguem nas redes sociais e viram o aviso sobre a mudança de data.

Bom público, apesar da alteração excepcional de data

Nesta edição do evento praticamente só levamos os jogos adquiridos e recebidos mais recentemente. Os títulos gentilmente doados pela Grow ao nosso acervo fizeram bastante sucesso, como já era esperado, tendo em vista que temos um crescente número de participantes que estão conhecendo agora os jogos modernos, além de pais com crianças e famílias em geral.

Galera se divertindo com Pictopia Disney.

Outro título que fez bastante sucesso foi Attack On Titan: The Last Stand. O jogo tem agradado bastante em todas as mesas pelas quais têm passado. É um cooperativo com overlord bem simples, porém com um detalhe de assimetria interessante. O jogador que controla o titã utiliza a mecânica de hand management, enquanto os demais que assumem o papel dos personagens do anime que lutam contra sua ameaça utilizam as mecânicas de dice rolling e press your luck. As partidas são bem rápidas. Sinto que vai ser muito jogado pelos próximos meses.

Potencial para se tornar um dos jogos mais jogados do evento nos próximos meses.

O Guadalupeças é um evento que não apenas acolhe os jogos nacionais, sejam eles protótipos ou já lançados, como também incentiva para eles sejam jogados. Portanto, tivemos mais uma edição em que a grande maioria de tudo o que foi jogado era de autores brasileiros. Legal é que cada vez mais isso vem acontecendo naturalmente. Contamos com a presença de 3 mesas de protótipo: Ira das Lendas, Sereias e Grasse. Todos são muito bem-vindos a apresentar livremente seus jogos no evento, só pedimos se possível para sermos avisados antes, por questões de logística e até para realizar a divulgação.

Ira das Lendas.
Sereias.
Grasse.

Além disso, tivemos também mesas de Bushido e Unfairy, dois dos jogos recém-lançados pelo sistema de print on demand da Game Maker, que estavam a venda no Diversão Offline. Tivemos mesas de Piratas e Por Favor! Não Corte Minha Cabeça, ambos da editora Geek N Orcs. Tendo o último o atrativo adicional da bela arte de Vitor Caffagi, mais conhecido por seu trabalho em MSP Turma da Mônica.

Bushido.
Por Favor! Não Cortem Minha Cabeça.

Confira mais alguns jogos que rolaram na edição de agosto do Guadalupeças:

Bohnanza – Papergames
Dwar7s Outono – Mandala Jogos.
Anime Saga – Arcano Games.

Obrigada a todos que estiveram presente a mais uma edição do Guadalupeças, espero poder rever a todos na edição de setembro, que volta a ser realizada terceiro domingo do mês. Nos acompanhe em nossas redes sociais para ficar sabendo antecipadamente o que esperar do evento, seja novos títulos disponíveis no catálogo ou protótipos que participarão. Se você gostaria de playtestar seu jogo com a gente entre em contato para divulgarmos com antecedência. Todos os jogos disponíveis no Guadalupeças, e que foram lançados no Brasil, você pode adquirir na Game Of Boards, a casa do jogador de boardgame no RJ.

Compartilhe:

Análise: Anime Saga

Já escrevi mais de uma vez por aqui sobre o quanto o Anime Saga, novo jogo do Michael Alves, lançado pela Arcano Games, me agradou. Tanto é assim que acredito que o Turno Extra deva ser o canal com a maior quantidade de conteúdo sobre ele, todos os vídeos estarão devidamente linkados no final deste post. Acho que vou até fazer uma playlist só do Anime Saga lá no canal. Isso sem contar com os textos que já rolaram  por aqui e que o mencionam de alguma forma. Só faltava mesmo a resenha completa, como a que apresento agora.

Setup montado para três jogadores.

Porém, eu não gostei tanto do jogo apenas pela sua temática, ela apenas serviu para despertar o meu interesse. Temas atrativos e arte bonita servem apenas para atrair o jogador, mas o que segura um jogo na coleção e o faz ver mesa constantemente é uma boa combinação de mecânicas, amarradas por regras consistentes.

Mais do um que algumas cartas bonitas e um tema inusitado.

O Anime Saga é um jogo de cartas que utiliza como temática as famosas animações japonesas. Os jogadores são heróis de um mesmo grupo de aventureiros e lutam contra cartas de desafio e inimigo com o objetivo de ganhar pontos de fama para se tornar o protagonista do anime no término da partida.

Dificilmente, um único jogador vai conseguir vencer sozinho uma carta de desafio ou desafio. Assim sendo, o jogo passa um certo clima cooperativo, reforçado pelo fato de não haver combate direto entre os jogadores. Porém, isso não significa ausência de interação. Ela só ocorre de maneira mais indireta, através do sistema compra e devolução de cartas que será detalhando mais a frente neste texto. 

Um sistema de Card Drafting que mantém todas as cartas em jogo.

O Anime Saga não é um jogo com a proposta de emulação fiel do tema através de sua mecânicas. É possível observar o funcionamento do jogo com um abstrato e me parece que seria relativamente fácil encaixar diferentes temas. Ele funciona através de uma mistura singular de Card Drafting com Hand Management e Set Collection. Porém, isso não significa que o tema está “colado com cuspe”.

O jogo representa bem o tema através do ótimo trabalho com os personagens, cada um deles inspirado em um esteriótipo clássico e com poderes e habilidades condizentes. Um detalhe interessante é que a combinação de personagens é o que faz o equilíbrio do jogo, assim sendo não existe aquele personagem reconhecidamente mais forte. Isso vai variar de acordo com as escolhas feitas pelos demais jogadores. O jogo possui um total de 10 personagens, o que garante bastante variabilidade.

Fichas de personagens do jogo.
Olá, Saber! (Famosa personagem da franquia Fate)

O fato de “forçar” os jogadores a trabalharem juntos para superarem os desafios e vilões e não permitir que haja ataque direto entre os jogadores também é bastante temático, já que estamos falando de um grupo que está em uma aventura junto para enfrentar um mesmo inimigo comum.Os personagens seriam amigos, apesar de cada um desejar alcançar maior fama que os demais. Os animes em geral funcionam muito com o esquema grupo de heróis, mesmo existindo um protagonista. No Japão, a coletividade é muito valorizada em detrimento a individualidade.

Outros pontos que reforçam o tema são as cartas em geral com artes inspiradas em diversos animes e as cartas do tipo Fama, que homenageiam os chamados episódios “fillers” presentes em praticamente todo anime. A nomeação dos locais de posicionamento das cartas também foi uma boa sacada: Episódio Atual, Próximo Episódio e Spoiler. Sempre após um episódio de anime são exibidas algumas cenas do próximo. O Spoiler é porque é algo que acontece com qualquer tipo de programa cuja exibição ocorre em episódios. Isso é reforçado nos animes, pois em geral são baseados em material pré-existente, seja mangás ou light novels, então sempre tem muito comentário sobre coisas que ocorrerão bem mais a frente, seja pela fidelidade ou justamente o contrário.

Os famosos “fillers” não foram esquecidos.
Como jogar:

Após cada jogador receber seu personagem, ele vai escolher suas habilidades iniciais de acordo com a pontuação disponível, que é variável de um personagem para o outro. As demais habilidade restantes podem ser destravadas ao longo do partida. É bem comum que ao término quase todas tenham sido ativadas.

Possíveis escolhas de cartas de habilidades para iniciar a partida.

O que determina a duração da partida é o deck montado a partir da combinação de cartas de desafio e vilão, o tamanho irá variar de acordo com a quantidade de jogadores. As cartas sempre serão posicionadas de maneira intercalada e a última será um Senhor das Trevas, que é o chefão final do jogo. Os jogadores só podem enfrentar as cartas do Episódio Atual, as demais abertas servem apenas para que os jogadores saibam o que enfrentaram mais adiante e possam se preparar.

Todas as cartas de Desafio disponíveis no jogo.
Todas as cartas de Inimigos disponíveis no jogo.
Todos os Senhores das Trevas disponíveis no jogo.

Os jogadores começam com uma mão inicial de quatro cartas, podendo chegar a um limite de até dez cartas. As demais cartas são distribuídas aleatoriamente pelos cinco espaços indicados no tabuleiro formando as pilhas de compras, a parte mais interessante do jogo.

Todas as cartas de ação disponíveis no jogo.

Na sua vez, o jogador deve escolher uma das quatro ações possíveis no jogo: Recuperar vida, Comprar cartas, Contribuir para Desafio ou Enfrentar Inimigo e Realizar ação de cartas. Todas as ações são realizadas de maneira bem simples fazendo com que o jogo tem um downtime bem baixo. Isso porque também é difícil ficar em dúvida sobre o que fazer.

A prioridade é sempre os Desafios e Inimigos, então os jogadores compram cartas para isso. Realizar uma ação de cartas ocorre quando no processo de compras acabasse montando o Set Collection, o momento da utilização vai do andamento da partida. Por exemplo: O jogador não vai usar cura se estiver com a vida cheia, então vai ser melhor guardar as cartas para utilizar em um momento de maior necessidade. O Recuperar vida é uma ação quase não usada, pois recupera apenas um de vida, porém é ação obrigatória quando a vida do personagem é zerada. Anime Saga não possui eliminação de jogadores.

Detalhamento das ações:

Comprar cartas: O jogador deve escolher umas das cinco pilhas disponíveis e pegar todas as cartas nela presente para si. Todas as cartas de ação estão sempre em jogo o tempo todo, seja nas pilhas ou na mão dos jogadores. Elas ficam em constante circulação, pois ao serem utilizadas são devolvidas as pilhas novamente. Começando a distribuição sempre pela pilha com a menor quantidade. Caso haja empate, então o jogador escolhe em qual delas a carta será posicionada. Sendo um jogo no qual uma das mecânicas principais é o Set Collection, para mim esse sistema de Card Drafting se torna o coração estratégico do Anime Saga. O que eu acho muito legal nele também é que nunca tinha visto nada assim em nenhum outro jogo, se não for algo inédito, ao menos é algo pouco usado. Isso para mim conta alguns pontos favoráveis, eu gosto bastante de novas formas de implementação de mecânicas.

O sistema de compra e devolução de cartas é o grande destaque na mecânica do jogo.

Enfrentar Desafios: Para enfrentar tal tipo de carta, os jogadores utilizam cartas que possuam os Atributos solicitados. Existem quatro tipos possíveis e a carta sempre exigirá uma combinação de dois deles. O jogador pontua pela quantidade de cartas jogadas e o progresso no cumprimento do Desafio é marcado em uma carta específica para esse fim. Todo Desafio vem ainda com um Requisito a ser cumprido para evitar um efeito negativo, sendo a combinação de cartas dos tipos exigidos.

Exemplo de jogada para contribuir para um Desafio.
Controlando o avanço no Desafio.

Enfrentar Inimigos: Para enfrentar tal tipo de carta, os jogadores utilizam seus poderes de ataque acrescidos de quaisquer bonificações concedidas por cartas de habilidade, valor rolado no dado e cartas do tipo Combate que forem jogadas. O jogador pontua de acordo com o dano que infringiu efetivamente no inimigo, descontado o valor de defesa fixo que ele possui. Após isso, será a vez do jogador ser atacado. Todavia, o valor de ataque do inimigo, assim como a defesa, é fixo. O jogador tem bonificações também na defesa, além de seu valor fixo, que advém de cartas de habilidade ativas e valor rolado no dado. Assim como nas cartas de Desafio, aqui também temos a exigência de cumprimento de Requisito para evitar Efeito Negativo, porém aqui o solicitado são os Atributos das cartas.

Exemplo de combate com Inimigo.

Realizar ação de cartas: O jogador deve baixar cartas de um mesmo tipo, porém de Atributos (cores) diferentes. Através dessa ação é possível: ganhar pontos de fama, curar e destrancar novas habilidades. Só é permitido realizar uma dessas ações por vez. Quanto mais cartas utilizadas (até o limite de quatro), melhor será o efeito. As cartas de Combate funcionam pela mesma regra de Set Collection, porém são utilizadas na ação de Enfrentar Inimigos.

Exemplo de jogada para utilização de ação de Cura com Set Collection completo.

A diferença entre os conceitos de Tipo e Atributo podem parecer um pouco confusas em um primeiro contato com o jogo. Porém, depois de uma ou duas partidas fica bem claro. Esse é o único ponto que acredito possa gerar alguma dificuldade para novos jogadores.

Um Tipo específico funciona de uma forma diferente das demais, servindo como uma espécie de Coringa. A carta de Troca deve ser utilizada antes da ação do jogador no turno e serve para pegar qualquer carta livremente escolhida. No lugar da carta selecionada é colocada a carta de Troca. Não existe limite de quantidade de cartas desse Tipo que podem ser utilizadas em um mesmo turno.

Olá, Saitama-sensei! (Protagonista de One Punch Man, dos animes mais atuais é o mais famoso)
Conclusão:

Por ter como proposta a conquista de novos jogadores, a complexidade do Anime Saga me surpreendeu um pouco, pois eu esperava algo mais simples. Porém, foi uma boa surpresa, pois não deixa de ser um título interessante para o público mais heavy gamer, não ficando limitado apenas a um gateway.  Eu não joguei tanto o Anime Saga quanto gostaria, mas tive a oportunidade de ensinar bastante e observar ele rodando entre jogadores novatos e vi que a complexidade não é uma barreira significativa de entrada. Depois de alguns turnos em geral os jogadores já estão bem a vontade com as mecânicas, restando apenas dúvidas mais pontuais.

Evento de lançamento do Anime Saga na loja Game Of Boards no RJ.

Como eu já disse antes, a questão da mecânica me conquistou muito. Gostei bastante do esquema de Card Drafting com Hand Management pensado pelo Michael. Nunca tinha visto nada parecido em nenhum outro jogo. Ele é simples de entender, mas complexo para dominar, o que oferece possibilidades de aprofundamento estratégico. Isso dá ao jogo uma curva interessante de aprendizado sem colocar uma barreira de entrada.

Por fim, o que eu considero o ponto mais fraco do jogo. Apesar de ter gostado bastante das referências. Foi bem prazeroso procurar identificá-las. Algumas realmente estão ligadas a personagens específicos, mas a maioria pode ser relacionada com mais de um anime, pelo jogo trabalhar muito com esteriótipos. Eu achei a arte inconsistente, desejando um pouco a desejar. Não chega a ser feia, mas pelo tema esperava algo mais bonito.

Uma arte bem foda. (Imagem retirada do manual)
Uma arte bem mais ou menos. (Imagem retirada do manual)

Mas, eu sou o tipo de pessoa que abandona anime por causa de traço/animação feios, se não tiver uma história realmente muito boa que me prenda a atenção. Assim como, também sou capaz de continuar assistindo um anime por causa de traço/animação bonitos, desde que a história seja minimamente interessante.

Sobre qualidade de componentes, não tenho do que reclamar. Acredito que a Arcano Games já conseguiu estabelecer um padrão elogiável nesse sentido. Duas marcas positivas da editora, na minha opinião, tem sido a boa qualidade material do produto entregue e o respeito aos prazos. Acho que foi a entrega mais rápida de FC que eu já vi.

Marcadores de plástico e dados em detalhe.

Acho que a única ressalva que eu faria em relação aos componentes do Anime Saga é quanto a caixa que achei pequena para comportar o jogo. Fica tudo muito certinho, quase sem nenhuma folga. Não dá para guardar os componentes correndo de qualquer maneira sem que a caixa fique estufada. Eu gastei algumas tentativas para pegar o jeito de como acomodar tudo confortavelmente, é preciso aprender a posição certa de cada componente. Outro ponto é que eu achei a tampa um pouco frouxa demais, fazendo com que a caixa abra com muita facilidade espalhando seu conteúdo ao ser transportada virada.

Componentes arrumados na caixa.

Os problemas que eu vejo no Anime Saga são extremamente pontuais e muito fruto de gostos pessoais. No geral, o jogo tem uma boa qualidade de componentes e regras consistentes que proporcionam uma boa experiência tanto para jogadores novatos quanto para os mais experientes. Para quem gosta do tema, acho um título indispensável na coleção, pois é algo raro. Para quem não é ligado no tema, vale a pena dar uma chance por sua combinação interessante de mecânicas. O jogo está por R$150 na Game Of Boards, nossa loja parceira aqui do canal. Não está muito acima do valor do FC e está justo considerando a quantidade de componentes.

Confira abaixo os vídeos que já publicamos sobre o Anime Saga:

 

Compartilhe:

Temas para atrair novos jogadores: animes

Como fã de animações japonesas em geral, fiquei bem entusiasmada quando soube que o Michael Alves, da Arcano Games, lançaria um jogo com esse tema. Mais legal ainda para mim foi saber que o Anime Saga era um projeto visando alcançar um público fora do nosso nicho. Como eu já escrevi por aqui anteriormente, percebo bem pouco sendo realizado nesse sentido. Muito se fala na necessidade de ampliar o público do hobby, mas há uma falta de ações concretas, porque isso significa assumir riscos.
O Anime Saga faz referência aos mais diversos animes em sua arte.
O máximo que temos visto são ações que visam conquistar o público nerd mais amplo, com grandes franquias sendo usadas como temas de jogos. Eu mesma fui atraída para o hobby na época do lançamento do Game Of Thrones LCG pela Galápagos Jogos. E um dos primeiros jogos que joguei, sendo até hoje um dos meus favoritos, foi Battlestar Galactica. Diversos títulos da minha coleção foram adquiridos em virtude da proposta de trazer para mesa a experiência de uma determinada história, entre os mais queridos por mim, estão ainda: Firefly e War Of The Ring.
Battlestar Galactica é um dos jogos mais imersivos que já joguei na vida.

Estão se tornando cada vez mais populares também adaptações analógicas inspiradas em grandes sucessos dos videogames. A versão de tabuleiro para StarCraft produzida pela Fantasy Flight tornou-se um título quase lendário, sendo vendida por valores bem altos por estar fora de impressão, uma vez que a editora não possui mais os direitos de publicação. Um título recente que também tem provocado também grande agitação é Mechs vs Minions, inspirado no fenômeno League Of Legends, sendo produzido pela própria Riot Games. 

StarCraft é o título mais valiosos da coleção, apesar de não estar entre os favoritos.
Porém, os fãs de animes e mangás são tidos como um nicho dentro de outro nicho, quase nada é lançado visando esse público. Geralmente, os jogos que utilizando o tema acabam ficando limitados a adaptações de grandes franquias, que conseguiram superar a barreira do preconceito e atingiram certa popularidade com o público nerd mais geral. Um exemplo recente disso, é a excelente adaptação que a Cryptozoic fez de Attack On Titan para o seu sistema Cerberus de Deck-Building.
Pequenas adições deixaram o jogo bastante temático sem descaracterizar o sistema.

Infelizmente, a maioria das produções japonesas ainda enfrenta problemas de aceitação junto ao grande público, que acaba olhando com um certo desprezo esse tipo de produto. Alguns taxam simplesmente como algo infantil, creio que contribua bastante para essa percepção o fato de sermos uma geração que cresceu assistindo programas como Cavaleiros do Zodíaco e Pokémon. Porém, acho que vale refletir um pouco sobre porque a mesma linha de pensamento não é aplicada aos super-heróis da Marvel e DC, que tem crescido em popularidade nos últimos anos graças ao trabalho realizado nos cinemas e na TV.

Goku vs Superman. Qual deles têm maior chance de te fazer ganhar aquela olhada de lado?

Existe também aqueles que acham que animação japonesa é uma coisa esquisita. Nesse caso, temos uma questão de choque cultural, que acaba vindo acompanhado de um certo preconceito. A pessoa acaba rejeitando quase que de forma automática qualquer anime, desconsiderando que existem variados estilos que são indicados para públicos diferentes, além de se recusar a fazer qualquer mínimo esforço no sentido de entender o contexto por trás de uma determinada obra. Um exercício de raciocínio bastante interessante, pois nos ajuda a enxergar melhor a nossa sociedade através do contraste com outra bastante diferente.

É engraçado notar o quanto a produção japonesa influencia diversas produções ocidentais elogiadas e de grande aceitação por parte do público. Um grande exemplo disso é Avatar: A Lenda de Aang. O elogiado desenho da Nickelodeon traz um forte conteúdo oriental em sua história e estética, mas utilizando de um modo narrativo mais direto. O sucesso foi tanto que gerou a continuação Avatar: A Lenda de Korra, que se aprofunda ainda mais em diversos elementos da cultura oriental, além de se aventurar em uma narrativa mais complexa fazendo uso de forma mais extensa de simbolismos.

O mais próximo que um desenho ocidental já chegou de parecer com um anime.

Outro grande sucesso que possui grande influencia da forma narrativa dos animes, fazendo grande uso de quebra de linearidade e elementos simbólicos para desenvolver uma história com alto grau de complexidade e múltiplas camadas interpretativas é Adventure Time. O grande fenômeno da Cartoon Network tem ao longo dos anos arrebanhado uma legião de fãs e inaugurou todo um estilo muito próprio de fazer desenhos.

Não por acaso existe uma grande quantidade de fanarts estilo anime.

As perspectivas de ampliação da receptividade de animes no ocidente ganhou um reforço de peso. O Netflix, serviço líder no setor de streaming, anunciou um forte investimento no segmento em evento recente destinado a divulgação para impressa de seus próximos projetos. Além do já amplamente comentado reboot de Cavaleiros do Zodíaco. Para o próximo ano, temos Kakegurui e Fate/Apocrypha já anunciados, dois animes muito populares da temporada atual, e a exibição exclusiva no ocidente de Violet Evergarden, título muito aguardado por todos os fãs de animes. Vale destacar também o lançamento de Blame, como produção original (de verdade), eles que anteriormente já haviam feito o elogiado Knights Of Sidonia, ambos do mangaká Tsutomu Nihei.

Netflix investindo cada vez em animes. O Brasil é um dos maiores mercados consumidores.

Diversos animes utilizam cardgames como tema, como o famoso Yu-Gi-Oh. Existem também aqueles que apesar de não ter cardgame como tema acabam gerando jogos de sucesso, como o popular Pokémon. Praticamente todos os animes de sucesso recebem um jogo nesse formato, graças ao sistema Weiß Schwarz criado pela editora japonesa Bushiroad.

Trial Deck de Weiß Schwarz Love Live School Idol Festival.
Além disso, ainda existem animes que tratam especificamente de jogos clássicos de tabuleiro e cartas como Hikaru no Go (que como o nome indica é sobre Go), Saki (é um anime sobre Mahjong) e, mais recentemente, Sangatsu no Lion (é um anime sobre Shogi, que é Xadrez japonês). Poderia citar também o já mencionado anteriormente Kakegurui, já que ele trata sobre disputas entre alunos em diversos jogos analógicos, principalmente de cartas.
Cena de Sangatsu no Lion que explica as regras do Shogi usando música e gatinhos fofos.
Yumeko Jabami, a protagonista de Kakegurui.

Então, temos um público significativo que poderia ser atraído para o hobby mais facilmente através de ações especificas e que tem sido praticamente ignorado. E isso não é apenas em termos de mercado nacional, mesmo lá fora muito pouco é feito pensando nesse público, usei o exemplo do Anime Saga apenas para desencadear a reflexão sobre um assunto que acredito mereça a nossa atenção.

O mercado de boardgames no Brasil está em uma expansão incrível nos últimos anos. Saímos de décadas de trevas aprisionados a War, Monopoly e Clue para descobrir que existe todo um universo gigantesco de outras opções. Todo dia vemos surgir novas editoras, game designers, lojas, eventos, produtores de conteúdo… Porém, a pergunta que me preocupa é: Todo esse crescimento é sustentável? Minha opinião é não. Penso que é preciso parar de olhar só para dentro e procurar maneiras de conquistar novos jogadores.

Este é o meu primeiro artigo de opinião e ele nasceu de maneira completamente espontânea quando comecei a escrever o que deveria ser apenas uma introdução para minha resenha do Anime Saga. Porém, acabou crescendo quase como se tivesse vida própria e se tornando um texto separado. Espero que ele seja informativo e ajude a suscitar reflexão. Deixe uma opinião sobre o assunto. Vocês gostariam de outros textos neste formato? 

Compartilhe: