Exclusivo: entrevista com Chris Bryan, criador do jogo Favelas

Favelas é um jogo de tabuleiro que será lançado ainda este ano, nos EUA, pela editora Wizkids. O game foi anunciado há algumas semanas e gerou certa polêmica, principalmente por conta de seu criador não ser brasileiro e pela temática, pouco comum nos jogos atuais. O blog Turno Extra entrou em contato com o designer Christopher Bryan, que criou Favelas e outros títulos ainda não lançados, para esclarecer algumas questões e saber mais sobre a produção. Confira o resultado deste bate-papo, abaixo:

Caixa do jogo Favelas

Turno Extra: Chris, é um prazer falar contigo. Conte para nós, Favelas é seu primeiro jogo?

Christopher Bryan: É meu primeiro jogo a ser lançado, mas provavelmente meu sexto ou sétimo jogo feito. Tenho alguns outros assinados com editoras, mas que ainda não saíram.

Turno Extra: Quando surgiu a ideia do Favelas? E sobre usar este tema?

Christopher Bryan: Comecei a pensar na ideia por volta do verão de 2016 (Nota do blog: inverno no Brasil). As mecânicas nasceram bem rápido, muito mais rápido do que qualquer outro jogo meu. Geralmente crio a mecânica antes e depois encontro o tema que melhor se encaixa. O tema, neste caso, apareceu bem cedo no processo de desenvolvimento.

Queria muito fazer algo com fichas hexagonais, que se parecem com cubos 3D. Eu estava movimentando as peças e comecei a criar um jogo onde eles se empilham de forma vertical, em vez de se espalhar horizontalmente, como na maioria dos outros jogos deste tipo.

Nessa mesma época, as Olimpíadas do Rio 2016 estavam acontecendo e haviam muitas reportagens nos Estados Unidos sobre os projetos de embelezamento de comunidades no Rio de Janeiro. Isso me lembrou sobre uma reportagem que li há alguns anos, sobre artistas que pintavam grandes murais nas favelas, como parte da revitalização da região. Tudo isso se uniu e formou a ideia para o tema envolvendo favelas.

Turno Extra: Você já esteve no Brasil? Ou viu de perto alguma das favelas do Rio?

Christopher Bryan: Nunca estive no Brasil, mas eu adoraria visitar algum dia.

Imagem do protótipo de Favelas, não representa a versão final

Turno Extra: Em uma comunidade brasileira de jogos de tabuleiro, no Facebook, notamos que algumas pessoas estavam reclamando sobre uma possível “apropriação cultural” no jogo, já que ele não foi feito por um brasileiro. O que você pode dizer sobre isso?

Christopher Bryan: Essa é uma preocupação muito válida. Certamente não é minha intenção me apropriar ou desrespeitar a cultura brasileira ou seus locais, mas é impossível fugir do fato de que eu sou um norte-americano branco que fez um jogo baseado em algo que eu não faço parte, diretamente, culturalmente ou hereditariamente. Eu já estava ciente que esse tipo de preocupação poderia acontecer, por isso tentei fazer o possível para usar o assunto de forma respeitosa e com dignidade.

Turno Extra: Você acha que o jogo pode glamourizar os problemas reais dentro das favelas do Rio de Janeiro?

Christopher Bryan: Essa é outra preocupação muito válida. O jogo é sobre um projeto real de embelezamento de cidades que ocorre no mundo, o que também pode ser visto como algo que, literalmente, joga tinta sobre os problemas reais. Soube que, recentemente, algumas favelas tornaram-se atrações turísticas, o que ajuda a trazer dinheiro em áreas econômicas pouco favorecidas, mas também traz a gentrificação, o que pode representar diferenças adicionais para as pessoas vivendo ali.

Todos esses são problemas reais e complexos e eu não tenho solução para eles. O que posso dizer é que sou extremamente simpatizante a estes pontos e não quero que meu jogo glorifique esses problemas. No final das contas, Favelas é um jogo muito simples sobre empilhar peças coloridas e espero que ele possa servir como um catalisador para que as pessoas aproveitem seu tempo com amigos e famílias.

Minha intenção com ele não é voltar a atenção para o embelezamento de favelas no sentido de gentrificação. Muitas pessoas que detestam os horrores da guerra gostam de jogar “wargames” e eu não acho que as pessoas que fizeram estes jogos ou aproveitam games com violência apoiem a violência do mundo real.

Não culpo ninguém por sentir que minha escolha de tema seja uma apropriação de sua cultura ou que esteja ignorando os problemas reais, acho que esse tipo de sentimento é válido. Mas não pretendo fazer nenhuma dessas coisas e tentei ser cuidadoso e atento em como eu estava apresentando o tema. Talvez eu devesse ter pensado em outro tema. Mas, ao mesmo tempo, penso que o mundo se torna um local muito pequeno se só formos autorizados a explorar temas e ideias que estão imediatamente em nossa volta ou parte da nossa cultura histórica.

Tenho certeza que alguns desses pensamentos vieram de um local de meu privilégio e estou feliz em ouvir visões opostas, que me ajudam a lembrar deste privilégio. Além de tudo, espero que as pessoas possam ver o jogo como uma celebração de um pequeno aspecto do Rio de Janeiro, aproveitando o game com as pessoas que amam.

Arte de Kwanchai Moriya para Favelas

Turno Extra: Há algum brasileiro envolvido no desenvolvimento do Favelas ou ao menos nas sessões de teste?

Christopher Bryan: Infelizmente não. Minha primeira escolha de desenhista foi o Weberson Santiago, um artista brasileiro que eu adoro e fez as artes do Coup e do Albergue Sangrento, mas infelizmente não conseguimos chamá-lo a tempo. Assim fechamos com a Kwanchai Moriya, que fez um ótimo trabalho.

Inicialmente o título do jogo seria “Rio de Janeiro”, mas um de meus seguidores brasileiros no Twitter me avisou sobre algumas preocupações envolvendo o nome – graças a essa interação decidimos por chamá-lo de “Favelas”.

Turno Extra: Você conhece algum desenvolvedor brasileiro de jogos? Ou algum de seus trabalhos?

Christopher Bryan: Conheço bem o Andre Zatz e o Sergio Halaban, joguei o Sheriff of Nottingham, Formula E e Quartz, inclusive. Há alguns anos eu joguei o Vineta, desenvolvido pelo Mauricio V Gibrin, Mauricio Miyaji e Fabiano Onca. Também estou bem familiarizado com Dogs, jogo do Marcos Macri, graças à campanha de financiamento coletivo de sucesso, que ele teve aqui nos EUA, no início deste ano – mas infelizmente ainda não o joguei.

O que sei é que o Brasil está ativo no mercado e crescendo rapidamente no cenário de jogos de tabuleiro. Espero que esse mercado cresça e mais jogos brasileiros ganhem versões em inglês.

Trecho do manual de Favelas que mostram peças da versão final

Turno Extra: Você tem algum gênero favorito de jogos de tabuleiro? Ou um jogo favorito?

Christopher Bryan: Gosto de jogar todos os tipos, mas meus favoritos, geralmente, são euros de peso leve ou médio. Sou um grande fã de jogos onde você precisa posicionar peças e fichas na mesa, além de alocação de trabalhadores (especialmente com dados). É impossível listar apenas um jogo favorito, então alguns deles são Castles of Burgundy, Carcassonne, Alien Frontiers, Agricola, Dominion e Flamme Rouge.

O Turno Extra agradece por seu tempo e deseja sucesso no lançamento do Favelas e futuros games!

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Vem aí um jogo de tabuleiro gringo sobre favelas cariocas

Favelas é um novo jogo de tabuleiro da editora Wizkids, com estilo “euro” e que usa a temática de… Bem, favelas! As comunidades cariocas inspiram este game, de autoria de Christopher Bryan. Ele prevê mesas para dois a quatro jogadores, com duração aproximada de 45 minutos, e será lançado em outubro deste ano, por US$ 35 na pré-venda – que já começou lá fora.

Em Favelas os jogadores terão que supervisionar o “embelezamento” de favelas icônicas do Rio de Janeiro. O problema é que, quem administra esse processo, terá que lidar com seus custos ou mudanças nas ideias originais, administrar as cores usadas e mais. O game se passa em três rodadas e é preciso coletar pontos de vitória para criar as favelas em cores diversas.

Apesar de parecer bem curioso, o boardgame parece se aproximar do que é visto no mundo real, com o embelezamento de favelas cariocas, em processos que são feitos em parceria entre moradores e governo local. Uma das comunidades que se beneficia com esse tipo de projeto é o Morro Dona Marta.

Os componentes são peças hexagonais de dupla face, seis dados, quatro tabuleiros de jogador, tabuleiro de pontuação, marcadores de pontuação e o manual de regras, é claro.

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